A serie the affair estreou na Showtime em outubro de 2014 com uma inovação narrativa que o drama televisivo americano raramente havia tentado com essa consistência, cada episódio mostrava os mesmos eventos duas vezes, primeiro da perspectiva de um dos protagonistas e depois da perspectiva do outro, revelando através das diferenças de percepção como cada pessoa constrói a própria versão do que aconteceu num relacionamento. Essa estrutura não era apenas formal, era o argumento central da série sobre como o amor, a traição e o remorso existem em versões irreconciliáveis dependendo de quem conta a história.
A narrativa de perspectiva múltipla como inovação estrutural
A decisão de mostrar o mesmo evento duas vezes, com diferenças sutis mas significativas entre as versões, criou uma experiência de espectador que é fundamentalmente diferente de qualquer drama matrimonial anterior. Quando Noah e Alison se encontram pela primeira vez, a versão de Noah mostra uma mulher que toma a iniciativa do flerte; a versão de Alison mostra um homem que insiste mesmo diante da sua hesitação. Nenhuma das duas versões é necessariamente a verdade, e a série se recusa a escolher entre elas, colocando o espectador na posição incômoda de precisar conviver com a ambiguidade que qualquer relação real contém.
Essa recusa de oferecer uma versão autorizada dos eventos funcionou tanto como argumento filosófico sobre memória e percepção quanto como dispositivo de suspense, porque o espectador passa o tempo tentando conciliar as duas narrativas e inevitavelmente acaba revelando seus próprios vieses sobre quem merece mais crédito.
Ruth Wilson como Alison Bailey e Dominic West como Noah Solloway construíram personagens com a profundidade que o formato exigia, criando versões de si mesmos que variavam sutilmente dependendo da perspectiva de quem narrava a cena. Wilson em particular demonstrou uma capacidade de criar uma Alison que é genuinamente diferente nos episódios narrados por Noah e nos narrados por ela mesma, com uma Alison mais vulnerável na visão dele e mais determinada na própria.
A química entre os dois foi essencial para que a premissa funcionasse, porque o espectador precisa entender por que dois adultos em relacionamentos estabelecidos optam por destruir o que têm por algo tão incerto. West e Wilson criaram um desejo que parecia genuíno e uma destruição que parecia inevitável, dando à série a credibilidade emocional que a estrutura narrativa inovadora precisava para sustentar.
Maura Tierney e Joshua Jackson como o outro lado do triângulo
A segunda temporada expandiu a estrutura de perspectivas para incluir Helen, interpretada por Maura Tierney, e Cole, interpretado por Joshua Jackson, os cônjuges traídos que até então haviam sido apresentados principalmente através dos olhos de Noah e Alison. Essa expansão transformou o que poderia ser um drama de adultério convencional num estudo de como uma traição afeta todos os que orbita em volta dela, com Helen e Cole revelando dimensões da situação que as perspectivas dos protagonistas originais simplesmente não conseguiam ver.
Sarah Treem, Hagai Levi e a origem israelense do formato
Hagai Levi, co-criador de The Affair ao lado de Sarah Treem, havia criado anteriormente BeTipul, a série israelense sobre sessões de terapia que a HBO adaptou como In Treatment. Essa formação em drama psicológico de câmara informa completamente a abordagem de The Affair, onde as cenas mais tensas frequentemente envolvem apenas duas pessoas conversando e onde o conflito é interno em vez de externo.
Sarah Treem havia trabalhado como roteirista em House of Cards antes de criar The Affair, e a combinação da sensibilidade psicológica de Levi com a estrutura narrativa sofisticada que Treem dominava produziu uma série que operava simultaneamente como estudo de personagem e como quebra-cabeça estrutural.
A primeira temporada de The Affair inclui uma segunda linha temporal, situada anos depois dos eventos principais, onde Noah e Alison são interrogados separadamente por um detetive sobre uma morte cujos detalhes o espectador desconhece. Essa estrutura de flash-forward transforma toda a narrativa de romance em investigação retrospectiva, com o espectador tentando identificar em cada cena o que eventualmente levará àquele interrogatório.
O dispositivo funciona porque dá ao drama de relacionamento uma urgência de thriller sem trair a natureza psicológica do material. O espectador acompanha uma história de adultério sabendo que alguém morrerá e que uma dessas pessoas pode ser responsável.
A recepção crítica ao longo das cinco temporadas
The Affair recebeu recepção crítica excepcional na primeira temporada, com o Globo de Ouro de Melhor Série Dramática confirmando o entusiasmo. As temporadas seguintes dividiram opiniões, com críticos apontando que a expansão para quatro perspectivas diluía a elegância da estrutura original de duas. A quinta temporada, com uma linha temporal futurista, foi a mais polarizadora de todas.
Essa trajetória de recepção é típica de séries com premissas formais fortes, onde a inovação inicial cria expectativas que o desenvolvimento posterior dificilmente sustenta na mesma intensidade.
The Affair ganhou o Globo de Ouro de Melhor Série de Drama na sua primeira temporada, um reconhecimento que validou a ambição estrutural do programa. Ruth Wilson ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz, confirmando que a performance era tão inovadora quanto a estrutura que a continha. Para o espectador que chega à série pelo streaming gratuito, esses prêmios funcionam como indicadores confiáveis de qualidade, mas o que a série entrega vai além de qualquer reconhecimento formal.
Ruth Wilson deixou a série ao final da quarta temporada em circunstâncias que geraram discussão pública considerável, e a quinta temporada precisou reconfigurar completamente sua estrutura narrativa em resposta.