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Móveis de alto padrão nos EUA: especialista explica como personalização, tecnologia e experiência estão redefinindo o conceito de luxo

Redação Jornal de Brasília

22/09/2026 11h31

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Há uma cena que resume boa parte da transformação silenciosa pela qual passa o mercado americano de móveis de alto padrão. Imagine… Uma pessoa entra em uma cozinha sofisticada. A pedra é impecável, a iluminação parece ter sido desenhada para aquele ambiente e os armários têm proporções perfeitas. Não há puxadores chamativos. Não há aparelhos disputando atenção. Nada parece excessivo.

Até que uma porta se abre.

Atrás dela está uma estação de café. Outra esconde pequenos eletrodomésticos. Uma terceira revela uma área de armazenamento que, à primeira vista, sequer existia. O luxo estava ali o tempo todo. Só não precisava aparecer.

Essa é uma das mudanças mais interessantes do mercado de mobiliário premium nos Estados Unidos: a sofisticação está deixando de depender daquilo que impressiona imediatamente e passando a depender cada vez mais daquilo que foi pensado especificamente para aquela pessoa, aquela casa e aquela rotina.

Durante décadas, boa parte do mercado de decoração trabalhou com uma ideia relativamente simples: escolher peças bonitas para compor um ambiente.

No segmento de alto padrão, essa lógica está ficando pequena.

Essa mudança aparece nos dados. A pesquisa 2026 U.S. Houzz & Home Study, realizada com mais de 20 mil usuários da plataforma, mostra que 54% dos proprietários americanos pesquisados fizeram algum tipo de reforma em 2025. O gasto no grupo dos 10% que mais investiu chegou a US$ 150 mil, 7% acima do ano anterior.

Para entender melhor este assunto, convidamos o profissional Laercio Carlos Marchioni Filho, especialista em móveis planejados de alto padrão e fundador da Marchioni Custom Furniture Corp., na Flórida, para colaborar com a produção desta reportagem. Segundo ele, o cliente não está mais olhando apenas para o móvel. Ele está olhando para a experiência que aquele móvel proporciona.

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A inteligência artificial já chegou à indústria, mas não veio para desenhar tudo

Existe uma certa expectativa de que a inteligência artificial vá, em pouco tempo, assumir boa parte do processo criativo. No mobiliário de alto padrão, a realidade é um pouco mais interessante.

A IA já começa a aparecer primeiro nos bastidores, e então, estimativas, documentação, comunicação, organização de projetos, visualizações e outras tarefas administrativas estão entre os usos que ganham espaço.

Um levantamento da Houzz com mais de 700 profissionais de construção e design nos Estados Unidos mostrou que 34% já utilizavam ferramentas de inteligência artificial em seus negócios em 2025. Entre os profissionais que adotaram a tecnologia, a economia média relatada ultrapassou três horas por semana.

O mais significativo, porém, é a expectativa: 66% dos profissionais entrevistados acreditavam que a IA transformaria o setor dentro de cinco anos.

Para Laercio, o caminho mais promissor não é entregar o projeto inteiramente à máquina, mas sim utilizar a máquina para chegar mais longe.

“Eu vejo a inteligência artificial como uma ferramenta para acelerar algumas etapas e ajudar na visualização. Mas existe uma diferença enorme entre gerar uma imagem bonita e fabricar aquilo com qualidade. O projeto precisa fazer sentido tecnicamente”, afirma o especialista.

O armário que resolve um problema

Talvez seja justamente aqui que esteja a nova definição de luxo. Não estamos mais falando sobre o tamanho do móvel, mas sim qual problema ele resolve.

Em janeiro de 2026, a Houzz divulgou sua pesquisa sobre tendências em cozinhas americanas. O estudo revelou que 76% dos proprietários que reformaram suas cozinhas adicionaram algum tipo de recurso embutido especializado.

Entre eles estavam armários de despensa, walk-in pantries, butler’s pantries e estações destinadas a tarefas específicas. Estações para bebidas, por exemplo, apareceram em 24% dos projetos analisados.

Este é um ótimo retrato de como o conceito de personalização está mudando. Agora não se trata apenas de escolher a cor do armário, é necessário responder a pergunta: o que essa pessoa faz dentro dessa cozinha?

Se prepara café todos os dias, por que não criar uma estação específica?

Se recebe convidados frequentemente, por que não separar uma área para bebidas?

Se não quer que pequenos eletrodomésticos fiquem expostos, por que não criar um compartimento para eles?

“Você pode ter o melhor material e a melhor máquina, mas se o processo for mal organizado, o resultado não será premium. Alto padrão exige consistência em todas as etapas”, acrescenta o profissional.

Um brasileiro na nova marcenaria americana

A história profissional de Laercio se encaixa nesse cenário de transformação.

São mais de 20 anos de experiência no setor moveleiro, começando na marcenaria familiar e passando por praticamente todas as etapas da cadeia produtiva. Ao longo da carreira no Brasil, esteve à frente de uma empresa especializada em móveis planejados residenciais e comerciais, coordenando equipes e projetos de médio e grande porte.

Entre os projetos realizados, estão cozinhas, dormitórios, espaços gourmet, ambientes corporativos e outros espaços personalizados. A experiência acumulada também inclui o fornecimento de móveis para mais de 300 residências.

Sua formação foi construída de maneira essencialmente técnica e prática, com especialização contínua em produção de móveis planejados, operação de CNC, acabamentos de luxo, gestão de produção, desenvolvimento de projetos sob medida e negociação com clientes e empreiteiros.

Sua experiência profissional no Brasil representa uma sólida base para aplicar esse conhecimento a um mercado maior, mais competitivo e com características próprias, como o mercado americano.

A experiência acumulada ao longo de sua trajetória profissional no Brasil reúne conhecimentos sobre desenvolvimento e fabricação de projetos personalizados, gerenciamento de equipes e coordenação de projetos para clientes particulares e empresas de construção. É esse repertório técnico e prático que permite a Laercio compreender os desafios e as oportunidades de um mercado como o americano, especialmente no segmento de móveis de alto padrão.

É uma trajetória que ajuda a explicar sua visão sobre o futuro do setor: não existe mais uma fronteira tão clara entre o marceneiro, o projetista, o gestor e o especialista em tecnologia.

O profissional de alto padrão precisa transitar por todos esses mundos.

O futuro está na integração

A grande transformação do mobiliário de luxo americano talvez não esteja na substituição do trabalho manual pelas máquinas, nem na chegada da inteligência artificial aos escritórios de projeto.

Está na integração.

A tecnologia aumenta a precisão. A personalização aumenta o valor percebido. O design organiza a experiência. O conhecimento técnico garante que aquilo que foi imaginado possa realmente ser produzido e instalado.

Mas há uma conclusão ainda mais interessante: o luxo está deixando de ser sinônimo de excesso.

É fato dizer que no mercado de móveis de alto padrão dos Estados Unidos, essa parece ser a nova medida do luxo: não ter simplesmente algo exclusivo, mas ter algo que só poderia ter sido feito para você.

 Autor: Mainara Screpanti

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