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Enquanto o drama brasileiro “Inexplicável figurava entre os três filmes mais assistidos do mundo na Netflix, seu autor seguia uma rotina bem menos glamourosa: sala de aula na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), em Campina Grande, orientações a alunos de jornalismo e longas horas de apuração para um novo livro. Aos 43 anos, o paraibano Phelipe Caldas vive um paradoxo raro no mercado editorial e audiovisual brasileiro: é o autor da obra que deu origem a um dos maiores sucessos recentes da plataforma de streaming, mas prepara, sem editora definida, um projeto denso, crítico e incômodo sobre a morte do jovem Gerson de Melo Machado, 19 anos, conhecido como “Vaqueirinho de Mangabeira”, atacado por uma leoa no zoológico de João Pessoa, em novembro passado.
O filme “Inexplicável”, estrelado por Letícia Spiller e Eriberto Leão, alcançou a terceira colocação no ranking global da Netflix poucas semanas após estrear no catálogo. Antes disso, já havia figurado entre as maiores bilheterias do cinema nacional. Inspirada no livro-reportagem “O menino que queria jogar futebol”, uma história de fé e superação, a obra narra a trajetória real de uma criança diagnosticada com um tumor no cérebro que, após uma cirurgia delicada, enfrenta um longo processo de recuperação física e emocional.

Lançado originalmente de forma independente em 2018, o livro chegou ao cinema quase por acaso. O diretor Fabrício Bittar entrou em contato com o autor pelas redes sociais e propôs a adaptação da história. Sem agentes, sem editora e sem estrutura de mercado, Phelipe aceitou o acordo, sem imaginar que, anos depois, sua história ocuparia o topo do consumo audiovisual em vários países da América Latina e em Portugal.
O sucesso internacional, porém, não se traduziu em fortuna pessoal. Impedido por contrato de revelar valores, o escritor resume a distância entre o imaginário popular e a realidade de quem vende direitos de adaptação no Brasil: o dinheiro recebido não daria para comprar sequer um carro. A constatação ajuda a desmontar a fantasia de que todo autor por trás de um fenômeno da Netflix se torna, automaticamente, milionário.
O incômodo com o caso do “Vaqueirinho”
Foi justamente o olhar crítico sobre os limites do jornalismo diário que levou Phelipe Caldas a iniciar seu novo projeto. A morte de Gerson, conhecido como “Vaqueirinho de Mangabeira”, após invadir a jaula de uma leoa no Parque Zoobotânico Arruda Câmara, a Bica, em João Pessoa, o impactou não apenas como cidadão, mas como pesquisador e professor de jornalismo.
Segundo ele, a cobertura do caso expôs o lado mais problemático do noticiário contemporâneo: rapidez excessiva, exploração emocional e pouca reflexão sobre o contexto de vida da vítima. Mesmo quando surgiram hipóteses de suicídio, os cuidados éticos mínimos recomendados para esse tipo de abordagem foram, na avaliação do escritor, ignorados por parte da imprensa e das redes sociais. O episódio acabou reduzido a manchetes e vídeos virais, com pouco espaço para compreender a complexidade da trajetória daquele jovem.

Na avaliação de Phelipe, o jornalismo cotidiano, pressionado por tempo, audiência e formatos cada vez mais curtos, tem dificuldade de lidar com histórias atravessadas por abandono social, falhas institucionais e sofrimento psíquico. A exceção, segundo ele, foi a reportagem mais extensa exibida pelo Fantástico, que dedicou cerca de nove minutos ao caso – ainda assim, tempo insuficiente para dar conta de todas as camadas envolvidas.
O autor também faz questão de esclarecer que Gerson não gostava de ser chamado de “vaqueirinho”, apelido pelo qual acabou se tornando conhecido após a tragédia. No livro, ele reconstrói a origem desse rótulo e mostra como o apelido, repetido de forma quase automática por parte da imprensa e das redes sociais, contribuiu para desumanizar ainda mais Gerson, reduzindo sua história complexa a uma caricatura.
Uma apuração de fôlego
Provocado por colegas de profissão, o professor decidiu transformar o incômodo em investigação. O que começou como reflexão pessoal virou um projeto de livro-reportagem em larga escala. Até agora, ele já entrevistou mais de 30 pessoas que conviveram com Gerson em diferentes fases da vida e analisou quase dez mil páginas de processos, relatórios e documentos públicos.
O material inclui registros da Vara da Infância e Juventude, documentos de casas de acolhimento por onde o jovem passou, relatórios da Secretaria de Direitos Humanos da Prefeitura de João Pessoa e outros órgãos por onde houve algum tipo de passagem institucional. Para acessar processos que correm em segredo de Justiça, o autor precisou de autorização judicial. Em alguns casos, os pedidos foram atendidos; em outros, ainda aguardam resposta.
O método combina jornalismo investigativo com formação em antropologia, área em que Phelipe possui mestrado e doutorado. A estratégia passa por cruzar depoimentos, confrontar versões e identificar contradições entre o que foi dito por pessoas próximas e o que consta em documentos oficiais. “As falhas do sistema aparecem justamente nesses desencontros”, avalia.
Para além do rótulo
Um dos pontos centrais do livro é a crítica à pressa em rotular. Para o autor, Gerson foi, desde muito cedo, enquadrado como “doente”, “problemático” ou “louco”, antes que suas experiências de abandono e violência fossem compreendidas em profundidade. Dos quatro irmãos, ele foi o único que não foi adotado. Ao longo da infância e da adolescência, passou por instituições e foi, sucessivamente, afastado de vínculos afetivos estáveis.
Embora tenha recebido, em determinado momento da vida, diagnósticos formais de transtornos mentais, Phelipe argumenta que houve uma patologização precoce, que contribuiu para reforçar estigmas e justificar exclusões. O ataque da leoa, que encerrou de forma trágica essa trajetória, passa a ser tratado no livro não como um evento isolado, mas como o desfecho de um percurso marcado por negligências acumuladas.
Um livro sem título – e sem editora
O projeto ainda não tem título definitivo nem contrato com editora. A primeira ideia, “Abandonado”, foi descartada pelo próprio autor por ser genérica demais. O desafio, segundo ele, é encontrar um nome que dialogue com a densidade da história sem reduzi-la a uma etiqueta simplificadora. A ausência de editora, mesmo após o sucesso de uma obra adaptada para um dos filmes mais vistos do mundo, expõe as contradições do mercado cultural brasileiro e a distância entre visibilidade midiática e estrutura profissional de publicação.
Phelipe Caldas diz não ter pressa. O livro ainda está em fase de produção e a apuração continua aberta. A intenção é construir um relato que vá além do episódio que chocou o país, lançando luz sobre a forma como a sociedade lida com pobreza, sofrimento mental e pessoas empurradas para as margens do sistema.
Entre o reconhecimento improvável no topo do streaming global e a escolha de contar uma história marcada por abandono e silenciamento, o escritor paraibano parece reafirmar uma posição pouco confortável: a de que algumas narrativas exigem tempo, cuidado e profundidade – mesmo quando o mundo pede velocidade, espetáculo e cliques.