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Quem caminha pelas ruas da capital paraibana em 2026 pode ser surpreendido por um anacronismo curioso. Entre notificações de Pix e ofertas de bancos digitais piscando nas telas dos smartphones, uma voz metálica ecoa pelos bairros, vinda de um alto-falante sobre quatro rodas: é o Governo Federal, através do Banco do Nordeste (BNB), oferecendo crédito.
À primeira vista, a cena parece um descompasso temporal. Por que uma instituição financeira que investe milhões em aplicativos, segurança cibernética e open banking recorreria a uma estratégia de marketing tão analógica quanto o carro de som? A resposta revela muito sobre a economia real do Nordeste e os limites da digitalização no Brasil.
A “Busca Ativa” sonora
Para os estrategistas, o carro de som não é um sinal de atraso, mas uma ferramenta de precisão cirúrgica para o que chamam de “busca ativa”. O alvo principal dessas campanhas geralmente não é o cliente que lê jornais digitais ou possui um score de crédito alto, mas sim o microempreendedor informal, o feirante, a costureira e o pequeno comerciante de bairro.
Programas como o Crediamigo — o maior programa de microcrédito da América Latina — dependem de chegar onde o algoritmo das redes sociais muitas vezes falha. Enquanto o marketing digital segmenta o público baseando-se em cliques e histórico de navegação, o carro de som segmenta pela geografia pura: ele fala com quem está ali, na porta de casa, com o comércio aberto, muitas vezes sem tempo ou dados móveis para navegar em busca de crédito.
A resistência cultural da mídia volante
Em João Pessoa, assim como em grande parte do interior nordestino, a “mídia volante” (termo técnico para o carro de som) possui uma credibilidade peculiar. Ela carrega um senso de urgência e oficialidade local. Quando o som passa anunciando, a mensagem é democrática: atinge o analfabeto e o doutor, o conectado e o desconectado.
Numa era de bolhas digitais, onde cada usuário vê apenas o que lhe interessa, o carro de som fura a bolha. Ele é a notificação push da vida real, impossível de ser bloqueada por um adblock.
Tecnologia x Realidade
O fenômeno aponta para uma estratégia híbrida necessária em um país desigual. O banco pode ser digital no processamento dos dados, mas precisa ser analógico no aperto de mão. O carro de som funciona como o primeiro elo dessa corrente, avisando que o crédito existe. O passo seguinte — a formalização — pode até ser feito num tablet por um agente de crédito, mas o primeiro contato foi feito na linguagem das ruas.