Entre os dias 9 e 11 de fevereiro de 2026, Paris voltou a ser o centro das decisões globais do setor vitivinícola com mais uma edição da Wine Paris. Mas a feira deste ano não foi marcante apenas pelos números, foi marcante, sobretudo, pelo conteúdo.
Com mais de 63 mil visitantes profissionais de 169 países e mais de 6.500 expositores, a Wine Paris consolidou sua posição como um dos principais encontros internacionais do setor. O crescimento da presença internacional reforça uma tendência clara: Paris se tornou um ponto estratégico de leitura do mercado global.

Mas, caminhando pelos corredores, ficou evidente que o setor vive um momento de inflexão.
O mundo está bebendo diferente
Dados recentes mostram retração no consumo mundial em volume, mas aumento no valor médio por garrafa. Em termos práticos, o consumidor pode até beber menos, mas quer beber melhor.
Produtores falam em ajuste de portfólio. Importadores falam em posicionamento claro. Distribuidores falam em margem sustentável. O romantismo continua existindo, mas o discurso agora é estratégico.
A sustentabilidade deixou de ser diferencial e passou a ser pré-requisito. A identidade territorial não é mais um argumento opcional, é essencial. A comunicação precisa ser mais direta, menos técnica e mais conectada com o consumidor real.
O não alcoólico entrou na conversa
Uma das novidades mais comentadas da feira foi o espaço dedicado às bebidas no/low alcohol. Pela primeira vez, o segmento ganhou protagonismo estruturado dentro de uma grande feira internacional.

Isso não significa substituição do vinho tradicional, mas ampliação do ecossistema de consumo. Existe uma geração que busca moderação, mas não quer abrir mão do ritual social. Ignorar essa mudança seria um erro estratégico.
Para o Brasil, ainda é um mercado incipiente, mas a tendência é clara: a categoria deve ganhar sofisticação e espaço nos próximos anos.
A pergunta que ficou no ar
Entre todos os debates, um painel sintetizou o espírito da edição de 2026. Intitulado “Why are we doing the same things again and again if they are not working?”, ele trouxe uma provocação necessária: se determinadas estratégias não estão funcionando, por que insistimos nelas?
A conversa foi conduzida por Priscila Hennekam, brasileira, estrategista internacional do setor e fundadora da plataforma Rethinking the Wine Industry, iniciativa dedicada a repensar modelos de negócio, comunicação e posicionamento no mercado global do vinho. Com atuação voltada à inovação estratégica e à transformação do setor, Priscila trouxe ao centro da discussão a necessidade de questionar estruturas tradicionais que já não dialogam com o consumidor contemporâneo.

Entre os debatedores esteve também outro brasileiro, Julio Cesar Kunz, vice-presidente da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS Brasil), profissional com sólida trajetória na formação de mercado, na educação do consumidor e no desenvolvimento da cultura do vinho no país.
O ponto central do painel foi direto: o vinho não enfrenta um problema de qualidade. Enfrenta um problema de adaptação.
Ainda se comunica da mesma forma. Ainda se vende da mesma forma. Ainda se estrutura o negócio da mesma forma. Enquanto isso, o consumidor mudou.

Falou-se sobre a simplificação da linguagem, sobre tornar o vinho menos intimidante, sobre compreender as novas gerações e sobre aceitar que categorias como no/low alcohol fazem parte do novo cenário.
O painel não ofereceu respostas prontas, ofereceu algo mais importante: a coragem de questionar.
E ver dois brasileiros participando ativamente dessa reflexão global mostra que o Brasil já não é apenas um mercado emergente consumidor. Está inserido na construção das próximas narrativas do setor.
O Brasil não está à margem, está no jogo
O Brasil não é mais apenas um mercado promissor. É uma realidade consolidada. Hoje, somos o maior mercado da América Latina, com consumidores cada vez mais informados, restaurantes mais sofisticados e importadores atentos ao que acontece nos grandes centros decisórios do vinho.
O que se debate em Paris não demora a chegar a São Paulo, Brasília ou ao Rio de Janeiro.
A Wine Paris 2026 deixou uma mensagem inequívoca: o setor não pode mais operar no piloto automático. O vinho precisa abandonar a postura defensiva e assumir uma postura estratégica. Precisa dialogar com novas gerações sem diluir sua identidade. Precisa simplificar a linguagem sem empobrecer o conteúdo. Precisa inovar sem perder profundidade.
E a pergunta que permanece, para produtores, importadores e também para nós, consumidores, é inevitável: se reconhecemos que o mundo mudou, teremos maturidade suficiente para mudar junto com ele?