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Vinhos e Vivências
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Tenuta Santa Maria: cinco séculos de história e uma das interpretações mais refinadas da Valpolicella

Em Arbizzano di Negrar, a família Bertani preserva uma propriedade onde vinho, arquitetura, arte e paisagem foram concebidos como parte de um mesmo projeto cultural

Cynthia Malacarne

12/06/2026 14h34

1 frontale dall'alto villa mosconi bertani

Foto: Cedida pela Tenuta Santa Maria

Existem propriedades vinícolas que produzem grandes vinhos e existem lugares cuja própria história ajuda a explicar por que esses vinhos existem. A Tenuta Santa Maria pertence ao segundo grupo.

Localizada em Arbizzano di Negrar, no coração da Valpolicella Classica, a propriedade representa uma das expressões mais completas da cultura do vinho no norte da Itália. Mais do que uma vinícola histórica ou um destino de enoturismo, trata-se de um conjunto concebido ao longo dos séculos para colocar o vinho no centro de tudo: da organização dos vinhedos à arquitetura, da arte à hospitalidade.

A relação da família Bertani com estas colinas remonta ao século XVI. Registros históricos documentam atividade vitivinícola da família desde 1567, evidenciando uma ligação contínua com o território muito anterior ao surgimento da Valpolicella como uma das denominações mais reconhecidas da Itália. Foi também nesse período que apareceram os primeiros registros do “brolo”, o vinhedo murado que ainda hoje constitui o coração da propriedade.

O conjunto arquitetônico atual começou a ganhar forma em 1735, mas sua singularidade está no conceito que o originou. Diferentemente das “villas” históricas italianas concebidas inicialmente como residência e posteriormente adaptadas à produção agrícola, a Tenuta Santa Maria nasceu como uma estrutura produtiva organizada em torno do vinho. Cantina, fruttai, espaços de appassimento, áreas de afinamento, vinhedos, jardins e ambientes de recepção foram projetados como partes de um mesmo organismo.

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Foto: Espaço de Appassimento

A villa neoclássica, atribuída ao arquiteto veronês Adriano Cristofali, integra essa visão. O edifício principal, acompanhado pelas alas laterais, pela capela dedicada a San Gaetano, pelos espaços agrícolas e pelas cantinas subterrâneas, demonstra como função produtiva e representação cultural caminharam juntas desde a origem. O caráter monumental é reforçado pelas esculturas atribuídas a Lorenzo Muttoni e pelo Salone delle Muse, espaço decorado com afrescos ligados ao ciclo agrícola e ao imaginário clássico.

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Foto: Cedida pela Tenuta Santa Maria

Essa dimensão cultural ganhou ainda mais força no final do século XVIII, quando a propriedade passou a receber com frequência o poeta e tradutor Ippolito Pindemonte. Autor da tradução italiana da Odisseia e uma das figuras intelectuais mais relevantes do período, Pindemonte transformou a Tenuta em um espaço de encontros literários e reflexão. O parque romântico que hoje envolve a propriedade nasceu justamente dessa sensibilidade, inspirado nos jardins ingleses e concebido como lugar de contemplação e diálogo entre natureza e pensamento.

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Foto: Salone delle Muse/ Foto: cedida pela Tenuta Santa Maria

Mas é no vinho que toda essa história encontra seu sentido. Ao longo do século XIX, a família Bertani teve papel importante na modernização da viticultura veronesa. Em 1883, Gaetano Bertani introduziu o sistema Guyot e o plantio em alta densidade na propriedade, praticamente em paralelo às grandes regiões francesas, numa época em que predominavam sistemas tradicionais menos especializados. Essa mudança marcou o início de uma viticultura mais precisa e orientada para a qualidade, e ajudou a definir parte do estilo que ainda hoje caracteriza os vinhos da Tenuta.

Essa visão permanece visível no Brolo dei Poeti, provavelmente o vinhedo mais emblemático da propriedade. Cercado por um muro de aproximadamente 3,5 quilômetros e concebido desde o século XVI segundo uma lógica que lembra os grandes Clos da Borgonha, o Brolo abriga parte dos vinhedos históricos da Tenuta e funciona como um ecossistema protegido. Além das parcelas cultivadas, conserva áreas de floresta, antigas fontes de origem romana e um sistema hidráulico histórico que ainda participa do equilíbrio hídrico do local.

Ali são preservados clones proprietários de Corvina e seleções massais de variedades históricas da Valpolicella, entre elas Rondinella e Oseleta. É desse vinhedo que nasce o Brolo dei Poeti, Amarone Classico Riserva DOCG, produzido exclusivamente em safras excepcionais e em volumes extremamente limitados.

A elaboração segue um processo rigoroso: colheita manual, dupla seleção dos cachos, cerca de três meses de appassimento natural sobre arelle de cana e vinificações separadas por parcela. O diferencial está no tempo de maturação: quatorze anos em grandes botti de carvalho da Eslavônia, seguidos de estágio adicional antes da liberação.

Ao lado dessas referências históricas, a Tenuta Santa Maria produz vinhos que percorrem diferentes expressões do território veronês, entre eles Amarone Classico Riserva, Valpolicella Classico Superiore, Ripasso, Recioto, Lepiga Soave DOC, Torre Pieve Chardonnay e Decima Aurea Merlot. Todos compartilham uma característica comum: a busca por elegância e precisão antes da concentração.

Em uma época em que muitos projetos vinícolas tentam construir uma narrativa em torno do vinho, a Tenuta Santa Maria chama atenção justamente pelo caminho oposto. Aqui, o vinho não sustenta uma história, ele é a origem dela.

Talvez seja por isso que a visita à propriedade deixe uma impressão difícil de reproduzir em outros lugares: a sensação de estar diante de um território onde o tempo continua sendo tratado como um ingrediente essencial e onde produzir vinho ainda significa interpretar uma paisagem, preservar uma memória e continuar uma conversa iniciada há mais de cinco séculos.

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