No sul da Itália, na região da Campania, existe um lugar onde história, cultura e vinho se encontram de forma quase natural. Paestum, antiga cidade da Magna Grécia fundada no século VI a.C., é conhecida por seus impressionantes templos dóricos, entre os mais bem preservados do mundo antigo. Caminhar por seu parque arqueológico é como atravessar séculos de civilização mediterrânea, dos gregos aos romanos, do passado clássico à cultura contemporânea do vinho.
Foi justamente nesse cenário carregado de história que participei do Paestum Wine Fest, um evento que vem se consolidando como um dos encontros mais interessantes do setor vitivinícola no centro e sul da Itália. Realizado anualmente em Capaccio Paestum, o festival reúne produtores, jornalistas, compradores e profissionais do setor para dias intensos de degustações, masterclasses e discussões sobre o presente e o futuro do vinho.
Mais do que uma feira tradicional, o Paestum Wine Fest se apresenta como um espaço de comunicação, educação e networking dentro do mundo do vinho. O evento tem crescido ao longo dos anos e reúne centenas de produtores e uma grande diversidade de rótulos em degustação, criando um ambiente que favorece o diálogo entre quem produz, quem comunica e quem comercializa vinho.

O valor dos eventos menores
Grandes feiras internacionais como Vinitaly ou ProWein são fundamentais para o comércio global do vinho. No entanto, eventos como o Paestum Wine Fest desempenham um papel diferente, e talvez igualmente importante.
Ali, produtores de pequeno e médio porte encontram espaço para apresentar seus vinhos diretamente a jornalistas, sommeliers e compradores. A dimensão é mais humana, mais próxima, e permite conversas mais aprofundadas sobre terroir, métodos de produção e filosofia de trabalho.
Esse ambiente favorece aquilo que hoje chamamos de wine education, a educação e a comunicação do vinho. São encontros que ajudam a formar cultura, aproximar consumidores e profissionais e dar visibilidade a produtores que muitas vezes não possuem grandes estruturas de marketing.

Espumantes italianos e Champagne uma masterclass de elegância
Entre as diversas atividades do evento, uma das experiências mais interessantes foi uma masterclass dedicada aos espumantes da Itália e da França.
Desde o início, os organizadores deixaram claro que o objetivo não era promover uma competição entre os dois países, mas sim apresentar as características e identidades de cada tradição.
Foram degustados espumantes italianos provenientes principalmente de Franciacorta e Trento DOC, duas das mais prestigiadas regiões produtoras de espumantes elaborados pelo método clássico na Itália. Entre os rótulos apresentados estavam produtores importantes como Ferrari, Muratori, Vittorio Moretti (Bellavista) e Ca’ del Bosco.
Do lado francês, a degustação incluiu grandes nomes do Champagne, como Bollinger La Grande Année, Dom Ruinart, La Grande Dame Veuve Clicquot, Boizel, entre outros.

A degustação mostrou algo muito interessante: a extraordinária qualidade dos espumantes italianos contemporâneos. Com precisão técnica, elegância e complexidade aromática, os vinhos italianos demonstraram que hoje ocupam um lugar de destaque no cenário internacional dos espumantes.
Mais do que uma comparação, a experiência revelou duas grandes escolas de produção, cada uma com identidade própria e profundamente ligada ao seu território.
Pequenos produtores grandes descobertas
Outro aspecto particularmente interessante do Paestum Wine Fest é a presença significativa de pequenos produtores, que encontram no evento uma plataforma importante de visibilidade.
Entre eles, chamou atenção o projeto da All’Insù, uma vinícola que representa bem a nova geração de produtores italianos: produções limitadas, forte ligação com o território e grande atenção à qualidade.
Também merece destaque a Cantina Gaffino, localizada na DOC Roma, uma denominação relativamente jovem, mas que vem mostrando um potencial crescente na produção de vinhos que expressam o caráter do Lácio.

Da Sardenha, outro produtor interessante presente no evento foi a vinícola Oskiros, que evidencia o potencial extraordinário da ilha mediterrânea para vinhos de grande personalidade, influenciados pelo clima marítimo e pelas variedades autóctones locais.
Esses produtores reforçam uma característica essencial da vitivinicultura italiana: a diversidade. O país é formado por milhares de pequenas cantinas familiares que mantêm viva uma tradição profundamente ligada ao território.
Entre arqueologia e vinho
Durante a viagem, tive também a oportunidade de visitar o Parque Arqueológico de Paestum, um dos sítios arqueológicos mais impressionantes da Itália.
Ali se encontram três templos gregos monumentais, perfeitamente preservados, que testemunham a importância da antiga cidade de Poseidonia, fundada pelos gregos há mais de 2.500 anos.
Caminhar entre essas estruturas milenares provoca inevitavelmente uma reflexão sobre o tempo e sobre a continuidade das culturas mediterrâneas. O vinho, afinal, faz parte dessa história desde a Antiguidade.

Os gregos já cultivavam videiras e produziam vinho nessas terras muito antes de Roma se tornar um império. Degustar vinhos contemporâneos a poucos quilômetros desses templos cria uma sensação curiosa: a de que o vinho continua sendo um fio invisível que conecta civilizações ao longo do tempo.
O que o Brasil pode aprender
Eventos como o Paestum Wine Fest mostram que a comunicação do vinho não depende apenas de grandes estruturas.
Às vezes, o que realmente faz diferença é criar espaços onde produtores, jornalistas e profissionais possam conversar, degustar e aprender juntos, construindo uma narrativa coletiva sobre o vinho.
Talvez seja um formato interessante para refletirmos também no Brasil: feiras menores, regionais, voltadas à comunicação e à educação do vinho brasileiro, com foco em divulgar os vinhos que estão sendo elaborados no país.
Não apenas na tradicional região sul, mas em todo o território brasileiro, onde novas fronteiras vitivinícolas vêm se consolidando, do Vale do São Francisco, no Nordeste, à Serra da Mantiqueira, passando por regiões emergentes em Goiás, Minas Gerais, São Paulo e Santa Catarina.
Criar encontros que deem visibilidade a esses produtores pode ser uma forma poderosa de aproximar o público da diversidade e da qualidade crescente do vinho brasileiro.