Quando um brasileiro viaja para a Campânia, normalmente o roteiro inclui Nápoles, Pompeia, Capri e a Costa Amalfitana. São destinos que justificam sua fama internacional. Mas basta sair dos percursos mais tradicionais para encontrar uma região onde a história, a gastronomia e a cultura permanecem profundamente ligadas ao território.
Foi durante uma viagem pela região de Castellammare di Stabia, Vico Equense e Gragnano que descobri uma Campânia menos conhecida, mas capaz de reunir alguns dos maiores patrimônios culturais e gastronômicos do sul da Itália. A visita aconteceu por ocasião do projeto Praesentia, Gusto di Campania Divina, iniciativa dedicada à valorização da cultura enogastronômica campana, que utilizou a culinária como ponto de partida para contar a história desse território.
A primeira parada foi a Reggia di Quisisana, antiga residência da dinastia Bourbon, construída em uma posição privilegiada entre o Golfo de Nápoles e o Monte Faito. Seu nome deriva da expressão latina Quid est sana, “aqui se cura”, uma referência à qualidade do clima que, desde a Idade Média, atraía nobres em busca de descanso.
Hoje, o palácio abriga o Museo Civico dell’Arte e della Storia di Castellammare di Stabia e o Museo Archeologico di Stabia “Libero d’Orsi”, que preserva afrescos, esculturas, objetos e mobiliário encontrados nas antigas villas romanas de Stabiae.

Embora Pompeia concentre a maior parte dos visitantes, Stabiae oferece uma perspectiva diferente da vida romana. Ali não estão as ruas comerciais e as casas populares, mas sim as residências de veraneio da aristocracia, construídas sobre as encostas voltadas para o mar. Os ambientes preservados revelam o requinte arquitetônico e artístico de uma elite que escolheu esse trecho do litoral como lugar de descanso há quase dois mil anos.

Poucos minutos acima da cidade, o teleférico leva ao Monte Faito, um dos passeios mais bonitos da Campânia. A mais de mil metros de altitude, a vista alcança o Vesúvio, Capri, Ischia e toda a Baía de Nápoles. É fácil entender por que essa paisagem influenciou não apenas a ocupação romana da região, mas também sua agricultura e sua culinária.
Entre o mar e a montanha desenvolveu-se uma tradição gastronômica que tem em Gragnano seu maior símbolo. Conhecida mundialmente como a cidade da pasta, Gragnano reúne características naturais que favoreceram, desde o século XVI, a produção da massa seca. A água de baixa mineralização proveniente dos Montes Lattari e a circulação constante dos ventos vindos do Golfo de Nápoles criaram as condições ideais para uma secagem lenta e uniforme. Durante séculos, era comum ver espaguetes, paccheri e ziti pendurados nas ruas da cidade, uma imagem que ajudou a transformar Gragnano em referência internacional.
Essa tradição permanece protegida pela Pasta di Gragnano IGP, produzida segundo um disciplinar rigoroso. A massa deve ser elaborada exclusivamente com sêmola de trigo duro e água local, passando obrigatoriamente pela trefilação em bronze, processo que lhe confere uma superfície mais rugosa e maior capacidade de absorver os molhos. Outro diferencial é a secagem lenta, técnica que preserva aroma, textura e qualidade muito superiores aos processos industriais acelerados.
Durante o encontro, o antropólogo Marino Niola, um dos principais estudiosos da cultura alimentar italiana, lembrou que a pasta ultrapassou há muito tempo a condição de alimento para tornar-se um dos maiores símbolos culturais do país.
Mas Gragnano não vive apenas de massa: também é lá que se produz o tradicional vinho Gragnano, um tinto frisante elaborado principalmente com Piedirosso, Sciascinoso e Aglianico. Servido levemente gelado, acompanha pizzas, massas e pratos da cozinha napolitana, preservando uma tradição que faz parte da identidade gastronômica local.
Se Gragnano representa a história da pasta, Vico Equense tornou-se uma das maiores referências da gastronomia campana contemporânea. Além dos restaurantes reconhecidos internacionalmente, a cidade preserva uma forte tradição artesanal. Um dos melhores exemplos é a Treccia di Fiordilatte, produzida manualmente pela Arte Casearia Vico De.Co., cujo processo praticamente não mudou ao longo das últimas gerações. Ao lado dela estavam o azeite extravirgem da Azienda Agricola Rubisco, produzido em pequenos olivais da Península Sorrentina, o pão de fermentação natural da Algrammo Forneria Evoluta e os tradicionais taralli do Biscottificio Cascone, produtos que revelam a força da agricultura familiar e do artesanato alimentar da região.

A identidade desse território também se expressa em seus vinhos. Entre os rótulos apresentados durante o almoço, destacou-se o Sireo 2023, da Abbazia di Crapolla, elaborado com Fiano e Falanghina, variedades históricas cultivadas entre o Monte Faito e o mar da Península Sorrentina. A vinícola desenvolve ainda um dos projetos mais importantes de preservação da biodiversidade vitícola da Campânia ao recuperar a raríssima uva Sabato, variedade autóctone de Vico Equense que praticamente desapareceu ao longo do século XX e hoje voltou a ser cultivada graças ao trabalho da propriedade.

A degustação incluiu ainda o Diecimare, da Azienda Agricola Guerritore, e o Passito Le Lune del Vesuvio, dois vinhos que evidenciam a influência dos solos vulcânicos e da proximidade do mar sobre a viticultura local.
O showcooking reuniu dois dos principais nomes da gastronomia italiana. Maicol Izzo, do Piazzetta Milù, duas estrelas Michelin, apresentou sua [FALTA COMPLEMENTO: o prato ficou sem descrição no original]. Já Peppe Guida, da Antica Osteria Nonna Rosa, uma estrela Michelin, preparou os delicados Spaghettini all’acqua di limone e Provolone del Monaco e o Corallino riposato con spollichini freschi e cozze, pratos que traduzem a essência da cozinha da Península Sorrentina.


Ao final da viagem, fica claro que Castellammare di Stabia, Vico Equense e Gragnano oferecem muito mais do que um complemento ao roteiro entre Nápoles e a Costa Amalfitana. Em poucos quilômetros, concentram sítios arqueológicos de relevância internacional, paisagens que alternam montanha e mar, produtores que preservam tradições centenárias e uma gastronomia que continua evoluindo sem perder suas raízes.
Para quem deseja conhecer uma Campânia mais autêntica, esse é um roteiro que merece ser percorrido sem pressa. Afinal, é justamente longe dos destinos mais concorridos que a região revela algumas de suas histórias mais interessantes, e também alguns de seus melhores sabores.


