Discurso de Wagner Moura
Respirar fundo é uma regulação emocional crucial em um momento histórico como este. Em outras situações, o ideal seria não chegar ofegante ao microfone, mas, nesse contexto, é esperado e autêntico. O erro de Wagner foi iniciar sua fala olhando para baixo por um longo período. Isso representa fuga da plateia enquanto concatena as ideias. Pode ser estratégico para se concentrar melhor no que irá dizer, principalmente em outro idioma, mas é um sinal clássico da linguagem não verbal de fuga e de concentração sem distrações advindas do nervosismo de encarar a plateia. Wagner teve muita dificuldade para segurar a respiração ofegante, respirando forte, além da dificuldade em se concentrar, já que precisou fechar os olhos para conseguir verbalizar. É uma estratégia que utilizou a seu favor? Sim, mas, se estivesse menos nervoso e tivesse treinado bastante o discurso, talvez o desempenho do início pudesse ter sido mais confiante.
A equipe de produção falhou, pois a altura do microfone não o ajudou a ter uma postura reta e de confiança, já que o forçou a se encurvar, o que tendenciava o ator a adotar uma postura mais curvada e a olhar para baixo.
A âncora de Wagner foi citar o nome de sua maior inspiração e honra para o momento. Ao citar o nome de Kleber Mendonça Filho, ele conseguiu encarar o público e citou pausadamente o nome, fazendo conexão ocular. Nesse momento, percebe-se a confiança, a segurança e o orgulho do ator. Posteriormente, o ator volta a olhar para o chão e a fechar os olhos para conseguir trazer um discurso polêmico, que pode repercutir positiva ou negativamente, mais um motivo para um comportamento de reflexão profunda ao verbalizar.
Não foi apenas regulação das emoções por ganhar o prêmio, pela vitória inédita e histórica, mas por querer trazer um discurso arriscado pelo teor político. Após a plateia se manifestar pela primeira vez com aplausos, sendo a primeira ao subir no palco, e a segunda ao citar Kleber Mendonça, quando ele trouxe expressões faciais para ser mais expressivo e uma mensagem profunda de forma muito bem pausada, teve merecidamente a manifestação pela terceira vez em aplausos. Wagner também se destaca pela potência vocal, já que conseguiu trazer uma voz firme e segura, com fluxo de fala bem pausado.
Já mais seguro, com a ajuda da plateia, ele se sentiu à vontade para falar em sua língua nativa, agradecendo à nação brasileira. A repercussão no Brasil sobre Wagner ter escolhido a língua inglesa para discursar foi negativa, mas o fato de ele finalizar em português trouxe um amortecimento. Afinal, ele estava lá por um filme brasileiro, representando um povo e uma cultura do Brasil, e o filme foi gravado na língua brasileira. Para fortalecer a identidade, o ideal teria sido falar todo o discurso em sua língua materna.
Pontos fortes: voz firme, discurso ousado, discurso em inglês e em português.
Discurso de Fernanda Torres no Globo de Ouro de 2025
Fernanda já começou encarando a plateia, trazendo segurança ao fazer conexão visual logo no início. Em geral, o ideal não é iniciar se justificando que não preparou nada, por qualquer motivo que seja, em voz com pouca potência. No entanto, escolher esse caminho trouxe autenticidade e humildade ao seu discurso. Fernanda também cometeu os mesmos deslizes que Wagner ao desviar o olhar da plateia para concatenar as ideias. Como forma de não se distrair e ficar ainda mais tensa, ela desvia e olha para baixo, um sinal clássico de fuga.
Em pouquíssimo tempo, Fernanda se encontra em meio às palavras e agradece a sua principal inspiração, muito parecido com a sequência de Wagner Moura. Quando Fernanda cita o nome de Walter Salles, a plateia aplaude e ela eleva sua emoção em formato de uma voz mais entusiasmada e vibrante, ao contrário de como começou o discurso. Lembrar da mãe, Fernanda Montenegro, que tem uma história muito respeitada e consolidada, fazendo modulação vocal, foi marcante e muito assertivo.
Fernanda teve a voz embargada, mas uma postura corporal impecável, gesticulando e olhando para a plateia. Conseguiu modular a voz e trazer boas pausas no discurso. Conseguiu fazer uma comparação da história da sua mãe com a personalidade da sua personagem, o que tornou seu discurso muito rico, que, segundo ela, foi de improviso.
Pontos fortes: improviso, carisma, conexão ocular.
Pontos similares: ambos falaram por 1 minuto e 40 segundos e trouxeram uma ancoragem ao citar os nomes dos responsáveis pelo longa-metragem.
Comparações técnicas:
Wagner: ousadia, discurso persuasivo e de impacto, voz confiante.
Fernanda: carisma, emoção, oratória, improviso e autenticidade.
And… Golden Globe goes to… Fernanda, na categoria feminina, e Wagner Moura, na masculina.