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Três Poderes
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Uma mensagem de coragem às lideranças femininas

Primeira mulher a governar o Distrito Federal e ex-deputada constituinte, Maria de Lourdes Abadia é a entrevistada da semana

Marcelo Chaves

15/07/2026 9h46

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Fotos: Luis Macedo / Câmara dos Deputados e Arquivo Pessoal

A entrevistada da semana da Coluna Três Poderes é a ex-governadora Maria de Lourdes Abadia. Nascida em Bela Vista de Goiás (GO), é graduada em Serviço Social pela UnB e pioneira na política do Distrito Federal. Conhecida como a “mãe de Ceilândia”, foi administradora da cidade, deputada federal constituinte, deputada distrital, vice-governadora e a primeira mulher a governar o Distrito Federal.

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Como era a dinâmica de trabalho na Assembleia Constituinte de 1987-1988 sendo uma das apenas 26 mulheres eleitas em um universo de mais de 500 parlamentares?

Louvável a dinâmica do trabalho conduzido pelo presidente Ulysses Guimarães. No início, tive inseguranças. Imagine uma assistente social, eleita sem ser política, para uma Assembleia Constituinte, sem nunca ter votado, entre as mais importantes lideranças políticas do Brasil.

Quais foram os maiores desafios e preconceitos superados pela chamada “Bancada do Batom” para garantir os direitos civis e sociais na nossa Constituição?

Muitos foram os desafios para as deputadas. Não se conheciam, oriundas de vários estados, partidos, ideologias, classes sociais e religiões diferentes. A curiosidade da imprensa em saber quem éramos nos incomodava e matérias diversas sobre qual a mais bonita, a mais feia, a mais elegante, as ricas saíam a todo instante. Benedita da Silva e eu éramos consideradas as mais pobres (faveladas). Usamos a sensibilidade e a sabedoria. Unimos e criamos o “lobby do batom” e trabalhamos juntas nas pautas mais importantes para o Brasil, rompendo assim os preconceitos e chacotas. Juntas, avançamos principalmente nos direitos civis e sociais.

Sendo a primeira mulher a governar o Distrito Federal, como a senhora avalia a evolução da representatividade feminina na política local ao longo dessas décadas?

Estamos avançando, a duras penas, mas falta muito. Mais de 50% dos eleitores do Brasil são mulheres e a maioria dos eleitos são homens. Sou otimista, vejo como conquista. Devagar, devagarinho chegaremos lá e também não deixa de ser uma formalidade partidária.

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Hoje, as cotas de gênero são amplamente debatidas. Em sua visão, elas cumprem o papel de inserção real ou ainda funcionam apenas como uma formalidade partidária?

Como aluna de Serviço Social, fui estagiária da UnB na pesquisa dos moradores que viviam nas invasões do DF nesta época. Já graduada, assumi a coordenação do projeto de transferência para Ceilândia e lá fiquei por 16 anos, sendo a primeira mulher administradora regional.

A senhora é historicamente reconhecida como uma das figuras centrais na fundação e organização de Ceilândia. Como sua formação em Serviço Social na UnB moldou as decisões daquela remoção e assentamento na década de 1970?

Sou suspeita para falar sobre Ceilândia (minha menina). A cidade foi e continua sendo uma benção. Um projeto de vida, um privilégio, experiência única e especial. Uma professora de Ceilândia fez uma vaquinha com alunos, pais e líderes de Ceilândia e me presenteou com uma caneta para assinar a Constituição. Não foi com a caneta de ouro, foi com a canetinha de Ceilândia que assinei a Constituição do Brasil.

Olhando para a Ceilândia que completou 55 anos, quais são os maiores orgulhos e as principais dívidas sociais que o Estado ainda tem com a região?

Quanto as dívidas sociais na medida do crescimento da cidade, crescem também os problemas e aspirações. É dever e obrigação do Estado conhecer e resolver os problemas. Aplicar bem os recursos com planejamento, execução, fiscalização, competência e honestidade.

De que forma o crescimento desordenado e as invasões habitacionais no DF afetam o projeto urbanístico original e a preservação de Brasília como Patrimônio da Humanidade?

O crescimento desordenado, as invasões, a especulação imobiliária e a falta de fiscalização comprometem terrivelmente o projeto urbanístico original e a preservação de Brasília como Patrimônio da Humanidade.

Qual foi o maior peso político e administrativo ao assumir o governo do DF substituindo Joaquim Roriz em 2006?

O maior peso político e administrativo ao assumir o Governo do Distrito Federal foi a derrota nas eleições de 2006. Preocupei-me em dar continuidade ao governo do governador Roriz, trabalhar dobrado e não tive tempo para fazer a minha campanha. Acabei perdendo. Mas valeu a honra de ser a primeira mulher a governar o DF. Governei Brasília no colo e com o coração além de escrever uma página linda na minha história e na história da capital da esperança.

A política dá voltas: após décadas de história e fundação do PSDB, a senhora migrou para o PSD sob a liderança regional do empresário e político Paulo Octávio. O que motivou essa mudança estrutural?

Já estava desfiliada do PSDB desde que, a convite do governador Rollemberg, assumi a Secretaria de Projetos Estratégicos do GDF. Agora tive os convites do ex-governador Arruda e Gilberto Kassab para disputar uma vaga de deputada federal. Aceitei.

Ao longo de sua carreira, a senhora transitou por partidos de diferentes espectros (como PFL, PSDB, PSB e União Brasil) e priorizou o pragmatismo em prol do DF. Como equilibrou as pressões partidárias com o seu compromisso social?

Fui uma das fundadoras do PFL na primeira eleição do DF. Apoiei o Cristovam no segundo turno quando perdi para governadora. Sempre militei politicamente com muita responsabilidade, respeito, determinação e compromisso. Passei por todos estes partidos e só fiz amigos. Agora mesmo tive convites, para disputar uma vaga para deputada federal, de quatro presidentes de partidos, o que me deixou super honrada. Todos me conhecem e sabem que faço política com o compromisso inegociável voltada para o desenvolvimento social e humano e muito amor por Brasília e pelo Brasil.

Se a senhora pudesse dar apenas um conselho para as jovens lideranças femininas que estão entrando na política do DF hoje, qual seria ele?

Coragem, muita coragem!

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