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Três Poderes
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Tecnologia aprimora a gestão do Judiciário

Desembargador federal Eduardo Morais da Rocha é o entrevistado da semana da Três Poderes

Marcelo Chaves

17/03/2026 2h00

Atualizada 16/03/2026 20h36

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Fotos: Marcelo Chaves

O entrevistado da semana da Coluna Três Poderes é o desembargador federal Eduardo Morais da Rocha, integrante do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), com sede em Brasília. Ele ganhou destaque nacional por implementar uma metodologia de gestão que permitiu zerar um acervo de aproximadamente 42 mil processos em seu gabinete. No bate-papo com o Jornal de Brasília, o magistrado também fala sobre os principais desafios na condução de seu gabinete e sobre o papel da tecnologia e da análise de dados na modernização do Judiciário brasileiro.

O senhor ganhou destaque ao conseguir zerar um acervo de mais de 40 mil processos em seu gabinete. Como surgiu a ideia de criar essa metodologia de gestão baseada em planilhas e algoritmos?

A ideia surgiu da necessidade de enfrentar um acervo extremamente elevado de forma organizada e mensurável. Percebi que era preciso tratar o gabinete também com uma lógica de gestão, utilizando planilhas e algoritmos simples para acompanhar o fluxo dos processos, identificar prioridades e distribuir melhor o trabalho da equipe. Assim nasceu a metodologia que deu origem ao projeto “Gabinete Zero”, baseada em controle rigoroso, planejamento e acompanhamento permanente dos resultados.

Na prática, como funciona esse modelo de organização que o senhor desenvolveu para acompanhar e dar andamento aos processos?

O modelo utiliza planilhas estruturadas que permitem classificar, acompanhar e monitorar o andamento dos processos de forma sistemática. Cada etapa do fluxo processual é registrada e acompanhada, o que possibilita identificar gargalos e priorizar demandas. Isso cria uma visão clara do acervo e permite ao gabinete trabalhar com metas e organização contínua.

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Esse sistema que o senhor criou pode ser replicado em outros gabinetes ou tribunais do país?

Sim. A metodologia foi pensada justamente para ser simples e replicável. Ela não depende de grandes investimentos tecnológicos, mas de organização, disciplina na gestão do acervo e acompanhamento constante dos dados. Por isso, pode ser adaptada a diferentes realidades de gabinetes e tribunais.

A experiência mostrou que é possível reduzir significativamente o estoque de processos. O que, na sua opinião, ainda impede que isso aconteça em maior escala no Judiciário brasileiro?

Muitas vezes o principal obstáculo não é tecnológico, mas organizacional. O Judiciário brasileiro lida com um volume muito grande de demandas e nem sempre há métodos padronizados de gestão do acervo. A adoção de práticas de gestão, análise de dados e acompanhamento sistemático dos processos pode contribuir muito para ampliar esses resultados em escala.

Desde que assumiu o cargo de desembargador no TRF1, em 2022, quais foram os principais desafios na condução do gabinete?

O principal desafio foi lidar com um acervo inicial muito elevado e estruturar uma forma eficiente de organização do trabalho. Foi necessário construir uma metodologia de gestão, engajar a equipe e estabelecer um fluxo que permitisse avançar continuamente na análise dos processos, diante de um estoque inicial de mais de 41 mil processos, além de um fluxo permanente de entrada de cerca de 500 a 600 novos casos, sempre preservando a qualidade das decisões

A redução do acervo processual impacta diretamente o tempo de resposta da Justiça. O cidadão já consegue perceber essa diferença na prática?

Sim. Quando o acervo é reduzido e o fluxo de trabalho se torna mais organizado, o tempo de tramitação diminui significativamente. Isso permite decisões mais rápidas e maior previsibilidade para as partes. Em muitos casos, processos que entram no gabinete na segunda-feira já podem ser incluídos em pauta de julgamento até a sexta-feira da mesma semana. Para o cidadão, isso representa uma Justiça mais eficiente e mais próxima da ideia de tutela jurisdicional efetiva.

Qual é o papel da tecnologia e da análise de dados na modernização do Judiciário brasileiro?

A tecnologia e a análise de dados têm papel fundamental para aprimorar a gestão do Judiciário. Elas permitem compreender melhor o comportamento do acervo processual, identificar padrões e otimizar a organização do trabalho. No caso do Gabinete Zero, todo o trabalho foi realizado sem o uso de Inteligência Artificial, pois, quando seu uso foi posteriormente autorizado pelo TRF1, o acervo do gabinete já estava zerado. Ainda assim, são ferramentas importantes de apoio à gestão e à eficiência institucional.

Depois de alcançar esse resultado no seu gabinete, quais são agora os próximos desafios ou metas dentro do tribunal?

O próximo desafio é consolidar e aperfeiçoar esse modelo de gestão, demonstrando que é possível enfrentar grandes volumes de processos com organização e método, independentemente da competência ou das matérias a serem julgadas. A ideia é difundir boas práticas de gestão do acervo, de modo que possam inspirar outros gabinetes e contribuir para um Judiciário mais eficiente.

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