Diretora-superintendente do Sebrae-DF, Rose Rainha foi a primeira mulher a ocupar o cargo na instituição. Advogada e administradora, ela dedica sua gestão a impulsionar o ecossistema de micro e pequenas empresas, com forte atuação no fortalecimento do empreendedorismo feminino e no desenvolvimento de políticas públicas inclusivas no Distrito Federal. Rose Rainha é a nossa entrevistada da semana.
A senhora idealizou o Movimente, baseada em pesquisas profundas sobre os obstáculos das mulheres nos negócios no DF. Quais foram os gargalos mais surpreendentes detectados e como o Sebrae-DF tem atuado para derrubá-los na prática?
O Movimente é um programa coletivo. Fruto não só da concepção de uma diretoria, mas do envolvimento e talento de colaboradores do Sebrae, das demandas, perspectivas e mobilização da população, além da sensibilidade de gestores públicos, academia, empresas e terceiro setor para se comprometerem com mudanças. Partimos de uma pesquisa que nos permitiu constatar uma realidade dura: na esmagadora maioria das vezes, o que impede uma mulher de prosperar nos negócios não é a falta de talento ou de vontade. É a falta de condições básicas para transformar essa capacidade em realidade.
Um exemplo do que identificamos em pesquisas que mostravam as diferenças entre o empreendedorismo masculino e feminino: escutamos histórias de mulheres que tinham seus estabelecimentos a poucos metros de similares mantidos por homens, mas que precisavam fechar suas portas mais cedo porque a violência era mais sentida por elas do que por eles. Por isso, o Movimente não nasceu no Sebrae-DF para ser uma ação isolada ou assistencialista. Ele veio para dar ferramentas reais para que a mulher seja dona da própria história. Não queremos vitimizar ninguém. Nosso compromisso no Sebrae é entregar o conhecimento e as oportunidades necessárias para que essas mulheres compitam de igual para igual.
A atual diretoria-executiva do Sebrae-DF fez história ao ser composta inteiramente por mulheres. De que forma essa liderança 100% feminina altera a sensibilidade e as prioridades das políticas voltadas aos pequenos negócios na capital?
É preciso lembrar que estar à frente de uma diretoria 100% feminina não significa que administramos apenas para mulheres, mas sim que trazemos ao Sebrae-DF um olhar diferenciado e sensível às reais dificuldades de quem empreende. Ao mesmo tempo, sabemos, na prática e na teoria, o quanto a mulher precisa equilibrar a gestão da empresa com a rotina da família. Mas sim, na nossa gestão, o empreendedorismo feminino deixou de ser uma pauta secundária para se tornar um pilar do desenvolvimento econômico do Distrito Federal. Com isso, queremos um Sebrae cada vez mais presente na vida dos empreendedores, enxergando as particularidades, potencialidades e transformando conhecimento em oportunidade real. Essa empatia e sensibilidade podem e devem provocar mudanças em uma realidade, na qual enquanto quase 50% dos pequenos negócios no DF são geridos por mulheres, essas ocupam apenas 17% das presidências de grandes empresas. Mudar isso, não é só um caso de justiça social, mas de reconhecimento e respeito a um vasto potencial que se mantém muitas vezes acorrentado em preconceitos.
Como o programa Sebrae Delas tem se integrado às políticas públicas do Distrito Federal para garantir a autonomia financeira de mulheres em situação de vulnerabilidade?
O Sebrae Delas é uma iniciativa nacional essencial que, aqui no DF, nós conectamos diretamente às políticas públicas de inclusão produtiva. Um grande fruto dessa integração é o próprio Movimente, que reúne o Sebrae-DF, o governo local, especialistas e a comunidade para abrir portas reais para essas empreendedoras. Atuamos em todas as pontas: com capacitação, consultorias de gestão, orientações para mercado e mentorias. Quando olhamos para as mulheres em situação de vulnerabilidade, sabemos que conquistar a própria renda vai muito além da economia. Trata-se de recuperar a autoestima, ter poder de decisão e quebrar ciclos de dependência.
A senhora frequentemente destaca a força de Ceilândia como um motor econômico do DF. Como o Sebrae-DF pretende replicar o forte DNA comercial de Ceilândia em outras regiões administrativas menos desenvolvidas?
Fico muito a vontade para falar de Ceilândia porque nasci e fui criada lá. Desde cedo, bebi na fonte da garra, inventividade e superação da região. Penso que neste “terroir” ceilandense, identificamos a capacidade que a comunidade tem de fazer e de acreditar. Por isso, essa vocação empreendedora da cidade. Mas, devemos lembrar que o nosso objetivo não é dar um “copia e cola” de Ceilândia em outras regiões. O Distrito Federal é plural, e cada Região Administrativa tem vocações e talentos únicos que precisam ser descobertos e impulsionados. É por isso que estamos levando a atuação do Sebrae-DF para dentro de cada território. Queremos ajudar a estruturar as cadeias produtivas locais, levando inovação, crédito e consultoria para onde o empreendedor está. Quando fortalecemos o pequeno negócio de uma RA, o dinheiro circula ali dentro, gerando emprego e renda para a própria comunidade.

O Sebrae-DF realizou encontros com administradores regionais com foco na desburocratização. Qual é hoje o maior entrave para a formalização de um negócio nas RAs e o que mudou com a reabertura de espaços como as Salas do Empreendedor?
O maior entrave ainda é a complexidade do processo. Às vezes o empreendedor é excelente no que faz, mas se perde na burocracia e não sabe por onde começar a regularizar seu negócio. É aí que entra o papel acolhedor das Salas do Empreendedor. Hoje contamos com 35 Salas espalhadas por quase todas as RAs – com exceção das mais recentes, como 26 de Setembro e Ponte Alta, que já estão no nosso radar de expansão. Só em 2026, esses espaços já registraram mais de 20 mil atendimentos e capacitaram mais de 4,4 mil pessoas. Isso prova que desburocratizar não é só cortar papelada; é oferecer um ponto de apoio humano e acessível. O empreendedor não precisa decifrar a máquina pública; ele só precisa encontrar no Sebrae e nos parceiros uma porta aberta, simples e resolutiva perto de casa.
Como iniciativas itinerantes, a exemplo do GDF na Sua Porta, têm ajudado a aproximar o microcrédito e as consultorias da população mais afastada do Plano Piloto?
A nossa lógica é clara: se o empreendedor não consegue vir até a sede do Sebrae, nós levamos o Sebrae até ele. Ações itinerantes como o GDF na Sua Porta nos permitem levar serviços essenciais até o coração das comunidades mais distantes. Contudo, fazemos questão de alinhar o crédito à orientação técnica. Acesso ao crédito sem planejamento pode virar um problema financeiro. Por isso, quando levamos a orientação sobre o microcrédito, levamos junto a consultoria de fluxo de caixa, precificação e gestão. Essa combinação de recurso com conhecimento é o que realmente garante um crescimento sustentável.
O programa Educação Empreendedora já alcançou centenas de milhares de alunos na rede de ensino. Como preparar professores e gestores públicos para ensinar empreendedorismo em uma cidade historicamente muito focada em concursos públicos?
Sabemos que existem limites para a capacidade de absorção do serviço público. Sim, Brasília tem uma cultura muito forte voltada para o concurso público, e respeitamos essa trajetória. Mas precisamos mostrar aos nossos jovens que empreender também é um caminho viável e realizador. E pode, no futuro, ser, senão o único, o mais viável. Ensinar empreendedorismo na escola não significa mandar todo mundo abrir empresa, mas sim plantar sementes de autonomia, criatividade e capacidade de resolver problemas. Para essa mudança acontecer, o professor é a peça-chave. Não adianta alterar o currículo sem darmos suporte a quem está na sala de aula. Em 2025, a Educação Empreendedora do Sebrae-DF alcançou mais de 616 mil estudantes e capacitou 12.477 professores. Quando transformamos a mentalidade do educador, formamos cidadãos mais preparados para construir o próprio futuro.