Com colaboração de Luciano de Brito Junior, Licenciado e Bacharel em Ciências Biológicas pela UFPB, Mestre em Ciência Animal pela UFCG e Doutor em Ciência e Saúde Animal pela UFCG.
O Prêmio Nobel é uma das mais prestigiadas distinções internacionais, concedida anualmente desde 1901. Estabelecido pelo químico sueco e inventor da dinamite Alfred Nobel, o prêmio abrange as áreas de Física, Química, Fisiologia ou Medicina, Literatura, Paz e Economia.
Em seu testamento, ele determinou que a maior parte de seu patrimônio fosse usada para financiar prêmios destinados àqueles que, durante o ano anterior, conferiram o maior benefício à humanidade. Pessoas que fizeram descobertas ou trabalhos notáveis e importantes dentro das seis áreas. Inclusive, ele pede especificamente que a entrega dos prêmios não leve em consideração a nacionalidade, mas sim os mais merecedores.
O Brasil possui uma comunidade científica vibrante, reconhecida internacionalmente pela alta qualidade de suas pesquisas. Recentemente, mais de 1.200 pesquisadores brasileiros foram destacados entre os mais influentes do mundo.
Pesquisadores brasileiros figuram com regularidade entre os mais citados do planeta. O Highly Cited Researchers, da Clarivate, é prova disso, com nomes da USP, Fiocruz, UFPel e UnB ocupando posições de destaque. E, ainda assim, a pergunta persiste, incômoda, como uma espinha cravada na autoestima científica do país:
Por que o Brasil jamais levou um Nobel?
A divulgação dos resultados preliminares da pesquisa brasileira com polilaminina para tratamento de lesão medular causou grande repercussão nas redes sociais. Vídeos de pacientes em recuperação motivaram uma centena de comentários pedindo que a bióloga Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ganhe o próximo Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina.
O que nos leva a fazer várias reflexões. Talvez o problema não seja a falta de heróis, mas quem escolhemos aplaudir e investir.
Para especialistas, o Brasil trata seus cientistas como despesa, não como investimento. Superar essa lógica exige romper com a austeridade fiscal que sufoca a pesquisa, desmantelar uma burocracia que engessa laboratórios e, sobretudo, conter a sangria silenciosa de talentos que deixam o país em busca de condições dignas de trabalho.
O resultado dessa equação aparece nos números e nas histórias. Doutores formados com dinheiro público constroem carreiras em universidades europeias e americanas. Laboratórios de ponta funcionam com equipamentos defasados. Bolsas de pesquisa, quando existem, pagam valores que não competem sequer com um salário de entrada no mercado privado. O Brasil não perde seus cientistas de uma vez. Perde aos poucos, numa erosão que raramente vira manchete.
Os números traduzem a dimensão do problema. Até setembro de 2023, quase 20 mil pesquisadores haviam deixado o Brasil em caráter definitivo, profissionais formados, em sua maioria, com recursos públicos, que foram construir carreiras e produzir conhecimento em outros países. Não é fuga de cérebros. É exportação subsidiada de inteligência.
Essa erosão silenciosa do nosso capital intelectual ganha contornos dramáticos com a ascensão da Inteligência Artificial. Existe um dilema de soberania em curso: se não valorizarmos o pesquisador brasileiro hoje, seremos meros usuários de prompt de tecnologias desenvolvidas em outros centros, automatizando nossa dependência em vez de acelerar nosso progresso. A IA não veio para substituir o cientista, mas para alavancar seu intelecto, permitindo que ele foque na criatividade e no que é verdadeiramente humano. Sem investimento público e privado, o Brasil corre o risco de exportar a mente e importar o algoritmo, perdendo o direito de ser arquiteto do seu próprio futuro tecnológico.
Reverter esse quadro exige mais do que discurso. Passa por remuneração compatível com a complexidade da carreira científica, bolsas dignas para pós-graduandos, hoje defasadas há anos, e planos de carreira que ofereçam horizonte a quem escolhe a pesquisa como vocação.
O investimento em ciência e tecnologia, por exemplo, gira em torno de 1% a 1,2% do PIB, considerado baixo para o potencial do país, com alta dependência de recursos públicos. É crucial a recomposição orçamentária de órgãos como CNPq, CAPES e FINEP, transformando a ciência em prioridade de Estado, e não de governos. Também é necessário incentivar a inovação dentro das empresas, criando uma ponte mais forte entre o meio acadêmico e o mercado e reduzindo a subutilização de pesquisadores.
Vale reconhecer o que o Brasil construiu. O país possui um dos maiores e mais rigorosos sistemas de pós-graduação do mundo em desenvolvimento, avaliado pela CAPES com critérios que rivalizam com padrões internacionais. É desse sistema que emergem os pesquisadores citados nos rankings globais, e é ele que precisa ser protegido, não esvaziado a cada troca de governo.
Há, porém, uma tensão estrutural que poucos debates públicos enfrentam com honestidade: a disputa histórica entre ciência básica e ciência aplicada. Enquanto a pesquisa aplicada responde a demandas imediatas e é mais facilmente justificável perante governos e sociedade, a ciência básica, que investiga sem a pressão de resultados rápidos, é exatamente onde nascem as descobertas que ganham Nobéis. Financiar o longo prazo em uma cultura política de curto prazo é, por si só, um desafio civilizatório.
O Brasil tem onde se apoiar nessa disputa. O país é referência mundial em áreas como medicina tropical, doenças negligenciadas, saúde pública, biodiversidade e agropecuária, campos nos quais pesquisadores brasileiros produzem conhecimento que impacta vidas em escala global. O problema não é ausência de excelência. É ausência de condições para que essa excelência amadureça até o ponto em que o mundo para e presta atenção.
O caso da pesquisadora Tatiana Sampaio ilustra bem essa complexidade. A repercussão popular em torno da polilaminina foi legítima e emocionante, e revelou uma sociedade faminta por heróis reais. Mas especialistas são unânimes: o estudo ainda está em fase inicial, e falar em Nobel neste momento é, no mínimo, prematuro. Celebrar é necessário. Confundir entusiasmo com evidência científica, porém, pode fazer mais mal do que bem, tanto à credibilidade da pesquisa quanto à própria pesquisadora, que merece ser reconhecida pelo rigor do seu trabalho, e não pela pressão das redes sociais.
A instabilidade das políticas de ciência e tecnologia é outro fator que compromete qualquer ambição de reconhecimento internacional. Para Guilherme Otaviano, doutorando em Políticas Públicas na Universidade do Estado de Nova Iorque, o problema está no descompasso entre o tempo da ciência e o tempo da política.
“Projetos científicos de grande impacto raramente produzem resultados imediatos. Ao contrário, dependem de décadas de continuidade institucional e colaboração entre gerações de pesquisadores”, afirma. Para ele, discutir reconhecimento global passa necessariamente por criar arranjos institucionais capazes de proteger o financiamento científico das oscilações conjunturais, “um ambiente estável no qual descobertas transformadoras possam amadurecer.”
Outro ponto que merece destaque é que, para que o Brasil conquiste um Prêmio Nobel, especialmente nas categorias científicas, seria necessária uma mudança estrutural e cultural que vá além da genialidade individual. O problema talvez não seja a falta de grandes mentes. Talvez seja também a nossa facilidade em ignorá-las. Se uma sociedade como um todo não aprende a valorizar seus cientistas, que são nossas riquezas intelectuais, ela também aprende, aos poucos, a abrir mão do próprio futuro. A verdadeira relevância deveria ser medida pelo impacto que alguém gera na vida das pessoas.
A pergunta que fica é simples e desconfortável: estamos celebrando e investindo nas pessoas certas? Afinal, quem tenta roubar a nossa atenção nos entrega o que em troca?
Essa conquista não fala apenas sobre medicina. Fala sobre propósito, sobre resiliência, sobre permanecer fiel a uma missão mesmo quando faltam recursos, reconhecimento e visibilidade. É isso que constrói legados. Hoje, não precisamos de mais ídolos vazios, mas de reconhecer quem cura, quem transforma e quem dedica a vida a melhorar o destino humano.
Eu acredito e defendo que investir no conhecimento, na ciência e em pessoas que dedicam a vida às gerações futuras é o caminho que sempre trará contribuições profundas para a sociedade, sem que isso esteja associado a um prêmio.
O Brasil continuará formando mentes capazes de mover o mundo, com ou sem Nobel. E talvez essa seja a chave para entender o próprio prêmio: para cada vencedor em Estocolmo, há uma centena de cientistas que fizeram descobertas igualmente extraordinárias e jamais subiram ao palco. O troféu é simbólico. A ciência, não.
O que o país deve aos seus pesquisadores não é um prêmio, mas condição de trabalhar, razão para ficar e a certeza de que o conhecimento que produzem importa. Isso sim define a relevância de um cientista. E, no limite, de uma nação.