Linda, desejada, bem paga, bem-sucedida. Se perguntasse para qualquer menina e mulher da época quem você gostaria de ser, elas diriam Marilyn Monroe. Mas havia algo terrível por trás da mulher considerada a mulher mais sexy do mundo, e isso não era nada atraente. E o pior, ninguém percebia.
O nome real dela era Norma Jeane Mortenson, e, com sete anos de idade, ela viu uma cena traumatizante. A sua mãe sendo levada à força para um hospital psiquiátrico, porque tinha esquizofrenia e consideravam que não era capaz de cuidar da própria filha. Então, Norma ficou sob a guarda do Estado aos sete anos de idade. Ela não fazia ideia de quem era o seu pai, ninguém sabia.
E ela foi adotada pela primeira família. E por que eu reforço que é a primeira? Porque tudo na vida de Norma foi intenso. Na primeira referência de família que teve, ela foi abusada sexualmente. Logo, foi levada para outro lar adotivo. E adivinha o que aconteceu? Exatamente a mesma coisa.
Norma era só uma criança precisando ser amada e cuidada, mas era sempre devolvida como objeto depois de ter o seu corpo usado e abusado. E pior, por quem deveria protegê-la. Em alguns deles, ela chegou a ser acorrentada e ouvir: “Daqui você não consegue sair”.
Eu estou falando de uma garota que, dos sete aos dezessete anos de idade, passou por onze lares adotivos. Na adolescência, entre os dezesseis e dezessete anos, ela viu em um vizinho a oportunidade de sair daquele cenário. E propôs a ele sabe o quê? Casamento. Ela só precisava sair dali, e ela saiu. E aquele foi o primeiro de muitos relacionamentos.
Uma vez, trabalhando em uma fábrica, ela foi notada por um fotógrafo. Ele disse que ela era muito bonita e que serviria muito bem como modelo, e que poderia fazer algumas fotos dela para ver no que daria. Para alguém que nunca recebeu amor, carinho e admiração, aquilo pareceu a manifestação máxima que poderia ter.
E ela também fez ali a sua primeira de milhares de fotos. Fotos que são famosas até hoje. Essa é Marilyn Monroe. Na época, as pessoas só viam a estrela e o sucesso, mas não viam a escuridão que havia por trás dela. Não viam o que acontecia quando as cortinas dos teatros se fechavam ou quando as câmeras se desligavam nos estúdios.
O que as pessoas não sabiam era que Marilyn, aquela estrela de sucesso, a mulher que decidiu desafiar Hollywood e venceu como poucos artistas venceram, era uma mulher completamente vulnerável, insegura, com depressão, viciada em álcool e drogas, e que prestava favores sexuais acreditando que só seria validada a partir disso.
Uma vez, na capa da revista Life, ela apareceu sorrindo e linda como sempre. E na capa estava escrito: “Eu pareço feliz? Você quer que eu seja? Bom, porque na minha infância ninguém queria. Eu era uma garota solitária, com um sonho que despertou e agora estou tornando realidade. Eu sou Marilyn Monroe. Leia a minha história de Cinderela”.
Até ela queria acreditar que vivia um conto de fadas, mas a verdade é que esse conto terminou de forma solitária em sua casa em Brentwood, Los Angeles. Marilyn morreu após tomar um coquetel de medicamentos com álcool. Sozinha, com a mão no telefone, como se tentasse pedir socorro para alguém. Só que esse socorro não chegou a tempo.
Marilyn até hoje é conhecida como uma das figuras mais emblemáticas dos Estados Unidos. A sua imagem é venerada até hoje, carregando o título de mulher mais sexy que o mundo já teve. Mas, por trás da estrela, havia uma escuridão que ninguém entendia e ninguém enxergava.
Há casas que abrigam corpos, mas não acolhem histórias. Lares onde o silêncio pesa mais do que as paredes, onde a infância aprende cedo demais a se encolher para caber no pouco afeto disponível.
Marilyn, ao reconhecer que a casa em que cresceu não era boa para ser filha, nem para ser mãe, dá voz a uma verdade que muitos carregam em silêncio: nem sempre o ambiente que nos formou foi capaz de nos nutrir.
Essas experiências moldam crenças profundas: não sou digno de amor, preciso ser perfeito para ser visto, sentimentos atrapalham. São narrativas que nasceram como estratégias de sobrevivência, mas que, na vida adulta, se tornam grades invisíveis.
E, ainda assim, há algo profundamente esperançoso nesse reconhecimento. Quando alguém consegue olhar para sua história com honestidade, sem negar a dor, sem romantizar o passado, abre-se uma porta para o recomeço.
Mas, embora não possamos mudar o que vivemos, podemos transformar o significado que damos a essas experiências e, principalmente, o modo como elas influenciam nossas escolhas hoje.
A casa que não foi boa para ser filho ou filha pode se tornar o ponto de partida para construir, com consciência, um novo lar interno. Um lar onde emoções têm espaço, onde limites são respeitados, onde a autocompaixão substitui a crítica implacável. Um lar que não repete padrões, mas os ressignifica.
Quando olhamos para a vida das outras pessoas, vemos apenas recortes de realidade. Eu vejo de você aquilo que você permite que eu veja. E você vê de mim aquilo que eu te dou acesso. Acontece que, das nossas próprias vidas, vemos o todo. E, de repente, parece que a nossa vida, a nossa realidade, a nossa história, é o maior caos da humanidade. Mas isso só acontece porque você vê dos outros um recorte, e da sua vida você vê o todo na íntegra, sem cortes, sem censura.
Mas não confunda o seu caos com a sua identidade. Você não é a sua bagunça ou o que fizeram com você. Você é exatamente o que sobra quando as luzes se apagam. Você é o que fica quando os olhares se desviam. Você não é os seus recortes que deram errado. Você é uma história inteira que vale a pena ser lida. Você não é esse caos e você não é o que fizeram com você. E que você perceba isso enquanto há tempo.
Porque sucesso não é apenas sobreviver ao que faltou. É aprender a oferecer a si mesmo aquilo que nunca veio de fora. É perceber que, mesmo vindo de uma casa que não soube amar, é possível aprender a amar e a se amar de um jeito novo.