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Sem Firula

Tristeza

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Era minha primeira Copa do Mundo como jornalista. E no país de meus avós. Foi, também, a primeira vez que viajei de avião. Estava em êxtase.
A eliminação diante da Argentina ainda não estava digerida. A seleção de Lazaroni (outro sobrenome italiano, comandando o Brasil, vejam só…) caiu num dia em que Maradona foi mais Maradona do que nunca e, dizem uma água batizada foi dada a Branco. Histórias do futebol.
Eu estava em Bari naquele 3 de julho de 1990. A Itália, dona da casa, enfrentaria a Argentina pela semifinal da Copa. Era a vingança que o destino preparara.
Naqueles quase 30 dias que eu estava na Bota vivi momentos inesquecíveis. Momentos que iria repetir apenas 24 anos depois, no meu Brasil.
O país respirava futebol. Não havia uma só conversa que não fosse citada a Azzurra, Schillaci, Zenga…
Só que a Argentina venceu, nos pênaltis, e no dia seguinte um clima de velório era sentido em toda a Itália.
Não tínhamos mais crianças nas ruas, a Copa se tornara um fantasma doloroso. Mas a vida precisava seguir.
Anteontem, a Itália disputou com a Suécia o jogo de volta da repescagem das eliminatórias para o Mundial de 2018, na Rússia.
Na partida de ida os suecos haviam vencido. Foi 1 a 0, mas a Azzurra perdeu. Como a volta era em casa, era de se supor que daria para virar o jogo.
A decisão, porém, foi marcada para Milão. Nada contra a cidade ou seus habitantes, mas…
Em 1990, na semifinal contra os argentinos, a Itália jogou no Sul. E Maradona, então, era um deus por lá – conduzia o Napoli, para quem não se lembra.
Assim que desembarcou na região, o argentino tocou fundo no orgulho local. “A vida toda eles esquecem que vocês são italianos… Agora que precisam, os chamam para ajudar”, afirmou o 10 argentino em clara referência ao distanciamento histórico entre Norte e Sul italiano. Distanciamento que provoca, até, de tempos em tempos, ideias separatistas.
E Maradona conseguiu apoio de italianos. No estádio muitos torciam pela Argentina, por Maradona.
Pois neste jogo de volta da repescagem, a Itália precisava ir para o Sul. Precisava sentir os pobres, os “paisani”, precisava voltar a ser Itália.
O Norte italiano é muito sueco. É rico, é educado (não que o Sul não seja, mas é uma educação diferente, quase asséptica). A Itália precisava de calor, de emoção. A Itália precisava de palavrões, de irritação. A Itália, mais do que nunca, precisava de tifosi, naquilo que a palavra tem de mais puro – doentes, infectados. Infectados pelo vírus do desejo de disputar uma Copa do Mundo.
Mas o jogo foi em Milão – e não digo que a eliminação aconteceu por isso, mas que ajudou, ajudou.
A Azzurra em momento algum mostrou ser uma seleção com quatro títulos mundiais. Apequenou-se. Queria marcar apenas com bolas cruzadas para a área. E não tinha talento – nem em campo, nem no banco, onde o treinador mostrou-se incapaz de alterar os rumos da partida.
Se em 1950 as lágrimas de Barbosa marcaram uma geração brasileira; em 2017 o grito de tristeza de Buffon marcará toda uma geração de italianos.
Buffon, caso a Itália se classificasse, disputaria em 2018 seu sexto Mundial. Seria o jogador com o maior número de Copas, superando o mexicano Carvajal e o alemão Matthaus.
Pelo que vi dos jornais italianos, Buffon foi o único poupado das críticas pela eliminação.
Passionais, os italianos falaram em vergonha, em apocalipse, em crise total e, num rasgo de criatividade, houve quem escrevesse “fora todos”, referência à exclusão de todos os jogadores (e comissão técnica), mas, também, ao fato de estarem todos os italianos ausentes da Copa do Mundo.
A situação do futebol italiano, que já dominou os sonhos dos jogadores de todo o planeta, é grave.
Num momento em que alguns dos principais times do país estão passando a ser controlados por chineses (casos do Milan e da Internazionale), a recuperação pode ser lenta. E traumática.
Acredito que ontem, nas ruas das cidades italianas, as crianças não tenham saído com suas bolas debaixo do braço. As camisas da Juventus, da Roma, da Inter, devem ter ficado nos armários.
O país viveu um dia de luto como há muito não se via.
Desde 1958, para a Copa da Suécia, a Itália não ficava ausente. E, que ironia, 59 anos depois, sua ausência foi provocada pela Suécia.


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