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Sem Firula

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Meus filhos estranharam.
Domingo, após o almoço na casa da avó (minha mãe), normalmente eles vão com a mãe para a casa da outra avó (minha sogra). Eu fico por conta do trabalho: ou vou para algum estádio, ou acompanho pela tevê a transmissão dos jogos fora do Rio de Janeiro. E eles só podem voltar quando os jogos terminam – caso eu esteja em casa, é claro.
Neste domingo, a programação deles incluia ver “Meu malvado favorito 3”. As aventuras de Gru e dos Minions os animam.
Saí mais cedo do almoço. Na cabeça deles estava indo para algum estádio.
Na verdade, triste, fui escrever a coluna de ontem sobre os covardes que estão destruindo nosso futebol. De casa rumei para o cinema, sem avisar nada. Quando eles chegaram e me viram se assustaram. Pensaram que eu estivesse ali para cancelar o programa. Quando falei que iria ver o filme com eles… Alegria – deles.
Curtinho, o filme terminou antes de 16h30 e, então, saí correndo para acompanhar Santos x São Paulo, Bahia x Fluminense e todos os demais jogos que aconteceram – além de, mais tarde, a prova de Fórmula Indy que terminou com o jejum de quase três anos sem vitórias de Hélio Castro Neves (assim mesmo, à moda antiga) e dos pilotos brasileiros na categoria.
As crianças não entenderam bem o que eu estava fazendo ali com o trabalho rolando. Elas sabem o quanto me dedico, como gosto do que faço…
Foi, porém, justamente por gostar do que faço, por me dedicar, que precisei arejar um pouco a cabeça antes de mergulhar, de novo, na maratona de jogos que caracteriza o domingo de quem ama futebol.
Pela manhã, propositalmente, não quis ver o jogo entre Chapecoense e Atlético Paranaense (e ontem fiquei sabendo que o Furacão decidiu demitir Eduardo Batista – queria saber para que o contrataram – e que Paulo Autuori, alçado à função de diretor, estava pedindo demissão).
Um ato de protesto, meu, só meu, diante das notícias que lera pela manhã sobre o que acontecera em São Januário.
Ontem, as primeiras informações davam conta de que o torcedor que perdeu a vida teria sido atingido por um tiro disparado pela PM. Isso mesmo: quem deveria estar ali para proteger, matou. Será? Mesmo que provem que não foi assim, a dúvida estará para sempre nas nossas mentes. Como levar meus filhos, de nove e sete anos, a uma partida de futebol com este risco?
Para que o leitor tenha ideia de como os tumultos de São Januário promoveram mudanças (que espero não sejam apenas de ocasião), ontem, um dos principais jornais do Rio de Janeiro teve praticamente todas as suas páginas do caderno de Esportes (que só sai às segundas-feiras) dedicadas ao fato. O Fluminense jogou e empatou? O Botafogo também, com Jefferson voltando após mais de um ano e pegando pênalti? Sim… Houve registro. E nada mais. O grosso da cobertura esportiva do fim de semana poderia ir parar nas páginas policiais. Falava-se de briga, de tiro, de tumulto. E ponto final.
Olhando a tabela de classificação verifico que o São Paulo, derrotado, caiu mais um pouquinho. Hoje é o vice-lanterna do Brasileiro, à frente apenas do Atlético Goianiense. Para queimar a língua do colunista, o Avaí bateu o Grêmio em Porto Alegre e passou a frente do tricolor paulista. E agora não podem mais colocar a culpa em Rogério Ceni.
O Flamengo dormiu no sábado na vice-liderança e acabou por ali mesmo, neste caso favorecido pela zebra catarinense. O Palmeiras, derrotado pelo Cruzeiro, viu o time mineiro aproximar-se na tabela e já há quem coloque em dúvida se a volta de Cuca foi boa ou não para a equipe. Mesmo ganhando, a Raposa viu sua diferença para o Vitória, que abre o Z-4, ficar em cinco pontos. Muito pouco, não é mesmo? Esta é a distância do Palmeiras, também. Não estou dizendo que palmeirenses e cruzeirenses devam preocupar-se com o fantasma do rebaixamento. Não. Pelo menos por enquanto. Mas que um mal resultado na Libertadores pode afetar o psicológico palmeirense…
Neste turbilhão de situações que veio à mente desde a noite de sábado fico imaginando nos pais que levaram seus filhos à São Januário. Crianças que, talvez pela primeira vez, estavam fazendo um programa “pais e filhos”. Já imaginaram o terror na cabeça destas crianças ao ver um grupo vindo na sua direção quebrando tudo, xingando, ameaçando – e depois sendo dispersado por tiros?
É ou não é para repensar esta paixão desmedida pelo futebol?


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