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Quinto Ato

Cem dias de solidão

Theófilo Silva

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Dia 27 de junho, completei cem dias de quarentena. Esse número me fez lembrar de Napoleão Bonaparte e seus famosos cem dias no poder, depois de sua fuga da ilha de Elba onde, ele, em vez de aproveitar sua liberdade, foi a procura de guerra, mortes e destruição. Acabou derrotado e confinado na Ilha de Santa Helena, a mais inóspita do mundo, onde morreu depois de um isolamento de seis longos anos.

Em 19 de março, almocei em um restaurante com uns amigos, quando tomamos uma cerveja e, já temerosos, sabíamos que seria uma despedida, um adeus momentâneo, aos hábitos normais de uma vida alegre, livre, comum. Iniciava-se, após o almoço, nosso isolamento por conta do Vírus letal. Sabíamos que ali começaria um período longo, doloroso e difícil, cheio de ansiedade, dor, pesadelos e perdas.

Durante esses cem dias de clausura – de supermercado e farmácia –, procurei fazer o contrário do lendário Napoleão, e como muitos de nós agi com sensatez adotando as medidas necessárias para minha proteção, da minha minha mulher, e de qualquer pessoa que estivesse próxima a mim. Confesso que o medo tem dominado minhas ações e comportamento durante esses cem dias. Calculei, com base em tudo que vi e li no que vai pelo mundo, que a Praga durasse, em sua fase mais perversa, rumo ao declínio, algo em torno de 110, 120 dias. Não sei se estou certo, mas torço para que assim o seja. Mesmo porque Europa e China estão mostrando isso. Vamos ver!

É aterrador para quem tem o hábito de acompanhar todas as manhãs e noites as notícias nos veículos de comunicação e redes sociais. O dia a dia passou a ser o gráfico de mortos e contaminados pela doença. E, mais ainda, violência, ódio, invasões, vandalismo, loucura, corrupção. O comportamento irresponsável do Presidente da República na condução da crise: as acusações de corrupção contra seus filhos, suas milícias digitais e de rua, e o flerte com o autoritarismo. Parece que as Sete pragas do Egito caíram sobre o Brasil. O Mal tem vencido o Bem de 7 X 1, como no jogo Brasil e Alemanha.
Não é fácil ir dormir, sabendo que você, ou sua mulher, seus filhos, amigos, vizinhos podem ter dificuldade de respirar a qualquer momento e acordar numa cama de hospital, ou mesmo não levantar mais. Assim, vivo medindo as horas, no compasso do tempo. Meu consolo tem sido ler, escrever, ver filmes históricos, ouvir boa música e, até certo ponto, ajudar com doações as pessoas necessitadas. Porque caridade, nesse momento terrível, é crucial, vital, acima de qualquer outro tipo de comportamento. Nesses cem dias, perdi um Tio querido e seis ex-colegas de trabalho para a Epidemia. Muito doloroso!

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O Bardo diz que nós “Somos meros joguetes da natureza…”. Somos mesmo, a Peste está confirmando isso. Shakespeare tem sido meu consolo, com sua leitura perfeita, atual, quase assustadora, de tão sábia, sobre a humanidade. Nesses sofridos dias, enchi as redes sociais de vídeos, palestras, citações, entrevistas, meus artigos, aqui no Jornal de Brasília, levando um pouco de consolo, de sabedoria, ao homem, esse ser decaído, as lições do bardo de Stratford, sobre essa noite tenebrosa que desabou sobre todos nós.

Shakespeare enfrentou quatro surtos de Peste bubônica, durante seus 52 anos de vida. Por isso tem toda a autoridade para nos consolar nesse momento. Assim, concluo com esta sentença da peça Ricardo II. “Em nome de Deus, avante, corajosos amigos! A consciência de cada um de nós vale mil espadas para combater esse sanguinário homicida… Assim, em nome de Deus, em marcha! A verdadeira esperança é rápida e voa com asas de andorinha”.


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