A entrevistada da semana da Coluna Três Poderes é Sâmia Bomfim, servidora pública graduada em Letras e parlamentar brasileira, atualmente exercendo seu segundo mandato como deputada federal pelo PSOL de São Paulo. Na conversa que teve com o Jornal de Brasília, entre outros assuntos, a deputada revelou que atualmente as parlamentares enfrentam barreiras de diversas ordens, tanto culturais quanto materiais na Câmara dos Deputados. Ela enfatizou que o Congresso trata a violência política de gênero como algo secundário. Na entrevista concedida, Sâmia Bonfim também destacou como vê a extrema-direita e seus líderes hoje brigando entre si para tentar galgar o espaço deixado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro após a sua prisão e a sua inelegibilidade.
A senhora tem uma agenda fortemente ligada aos direitos das mulheres, do trabalho e das minorias. Qual considera ter sido, até agora, o principal avanço concreto do seu mandato no Congresso?
Eu tive um papel muito importante em diversas lutas pelos direitos das mulheres. Eu destacaria quando nós conseguimos barrar o PL do estupro, porque eu atuei tanto do ponto de vista institucional, nas seções, nas articulações, mas sobretudo convocando as mobilizações de rua em diálogo com o movimento feminista. E também quero destacar toda a contribuição no que diz respeito ao avanço da licença-paternidade da emenda que foi aprovada na Câmara, que garante um terço de tempo a mais para as famílias atípicas.

Apesar do aumento no número de deputadas, o Congresso segue majoritariamente masculino. Onde estão hoje os maiores obstáculos para que mulheres não apenas entrem, mas também influenciem decisões centrais do Parlamento?
São barreiras de diversas ordens. São culturais e materiais, até porque as mulheres têm menos tempo. Elas trabalham não só no mercado de trabalho, mas também dentro de casa. Elas sofrem com o machismo ou então o estímulo para que ocupem espaços de poder e de decisão. É muito inferior ao que é dado aos homens, mas eu acho que o obstáculo está sobretudo nas regras do jogo político nos partidos políticos, que não priorizam mulheres e que, na maioria das vezes, não cumprem com as regras, com as definições do TSE de cotas no fundo eleitoral, no tempo de TV, constroem candidaturas laranjas, subjugam as mulheres e só abrem espaço para aquelas que reproduzem o poder vigente, geralmente esposas e filhas de parlamentares e políticos influentes.
A senhora já foi alvo de ataques e campanhas de desinformação. O Congresso está preparado para enfrentar a violência política de gênero ou ainda trata o tema como algo secundário?
O Congresso trata a violência política de gênero, sem dúvida, como algo secundário. Não dá o devido e correto encaminhamento aos diversos casos de violência política de gênero que acontecem, seja através das redes sociais, no plenário ou na tribuna e nas comissões. Não houve nenhuma postura exemplar, nem por parte do atual, nem por parte do antigo comando da Casa. O que acontece é que há mulheres dentro da bancada feminina. Elas se organizam, se solidarizam e buscam respostas na sociedade, no judiciário, quando possível. Mas o Congresso, ao contrário, é um palco de livre expressão do machismo e é um espaço ainda hostil às mulheres e, quando elas reagem e se levantam, são taxadas de desequilibradas, barraqueiras e tentam, enfim, associar isso a uma espécie de comportamento indevido feminino.
Em um cenário de flexibilização das relações de trabalho e crescimento da informalidade, como proteger direitos sem ignorar a realidade econômica do país?
Acho que é importante ter um diagnóstico de que a flexibilização das relações de trabalho e o crescimento da informalidade tem um objetivo que é ampliar as desigualdades sociais, ampliar a dominação de classe, a relação de exploração. É por isso que é importante, no Parlamento, utilizar o mandato como instrumento para ecoar essas desigualdades, essa relação de exploração. Hoje tem uma lógica vigente de uma política fiscalista e neoliberal e é preciso, sim, nadar contra a corrente e eu enxergo o meu mandato como instrumento para isso.

Como a senhora define hoje a relação do PSOL com o governo Lula: apoio crítico, independência estratégica ou cooperação pontual? Onde estão os principais pontos de convergência e divergência?
O pessoal é linha de frente na unidade com todos os setores da esquerda, os setores democráticos, para enfrentar a extrema direita e defender Lula dos ataques sórdidos e baixos que os golpistas cometem no Brasil. Agora, isso não significa não termos o direito de apresentar e defender as nossas diferenças que se dão sobretudo no campo econômico. Nós votamos e somos contra o arcabouço fiscal que limita investimento em áreas sociais fundamentais. A gente acha que isso precisa ser revisto. E a gente também tem algumas diferenças no que diz respeito à pauta ambiental. Por exemplo, agora essa proposta de privatização de três rios brasileiros: Madeira, Tocantins e Tapajós. Nós apresentamos um decreto pela sua revogação, bem como o tema da exploração na foz Amazônica. Então é isso, é manter a independência política para apresentar as nossas propostas, o nosso programa, as nossas pautas, mas sabendo que nós temos um grande inimigo para ser enfrentado e derrotado, que é a extrema-direita, ainda mais agora, estando ela alinhada ao Trump.
A senhora tem se posicionado de forma firme em temas internacionais, especialmente em relação a conflitos e violações de direitos humanos. O Brasil tem sido coerente entre discurso diplomático e prática?
Acredito que a diplomacia brasileira e o presidente Lula têm tido posições humanitárias que fazem sempre um apelo às lideranças globais de que se possa seguir os pactos, que respeitem os direitos humanos, que respeitem a soberania dos países e têm reagido, do ponto de vista discursivo, de forma contundente, seja às declarações de Trump ou seja ao genocídio em Gaza. Mas do ponto de vista prático, no meu ponto de vista, seria necessário ações que fossem além, sobretudo porque a gente estava vivendo sob um ataque imperialista dos Estados Unidos, e que para eles a lógica tradicional diplomática, os acordos estabelecidos pós-segunda guerra mundial, guerra fria, já não se encontram mais no vocabulário dos atuais líderes da extrema-direita, que de fato enxergam o Brasil como seu quintal e acham que podem fazer o que quiser, inclusive sequestrando presidentes, como aconteceu com Nicolás Maduro. Então, no meu ponto de vista daqui para frente, é necessário endurecer no discurso e sobretudo nas ações.
Como a senhora avalia a atuação da extrema direita no Legislativo hoje: ela perdeu força ou apenas mudou de estratégia?
Eu enxergo a extrema-direita, os líderes da extrema-direita hoje brigando entre si para tentar galgar o espaço deixado por Jair Bolsonaro após a sua prisão e a sua inelegibilidade. Ou seja, é mais um oportunismo eleitoral de tentar cada um por si alavancar o seu próprio poder, capital político e também econômico na estira do bolsonarismo do que de fato construir uma direção ou uma liderança que caminhe rumo a um projeto. Não vejo eles com um projeto. Acho que a estratégia agora é um oportunismo eleitoreiro mesmo.
Olhando para os próximos anos, a senhora se vê prioritariamente no Legislativo ou aberta a novos desafios políticos? O que ainda considera essencial realizar na vida pública?
Bom, nos próximos anos eu pretendo renovar o meu mandato. Ir para o meu terceiro mandato como deputada federal, pois eu tenho dez anos de atuação institucional. Fiquei dois anos como vereadora na cidade de São Paulo, depois tive um crescimento eleitoral meteórico. Cresci 20 vezes. Foram duas eleições muito expressivas, estou indo para o terceiro processo eleitoral em que eu acredito que terei novamente uma votação expressiva e estou disposta a encarar novos desafios e novas tarefas, se essa for a avaliação dos meus eleitores e se eu seguir galgando esses espaços de liderança e de representação. Acredito que eu represente um perfil importante para a política brasileira de uma mulher feminista, de esquerda combativa e eu espero que independentemente desse processo eleitoral, que esse perfil ganhe força na sociedade e na política brasileira.