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Mandando a Letra

Uma surpresa viquingue

Ler dicionário é uma tarefa considerada inusitada pela maioria das pessoas.

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Ler dicionário é uma tarefa considerada inusitada pela maioria das pessoas. Bem, inusitado é um adjetivo bastante tranquilo para o que dizem por aí quando falo que gosto de ler dicionários. Geralmente dizem “doido” mesmo. Mas a atividade tem suas vantagens e surpresas.

Essa mania de ler dicionários

Claro que tive muitos amigos que gostavam de se aventurar pelos “pais dos burros”. Mas, quando falo dessa tarefa, lembro-me logo de um especial que já não está mais por aqui: o poeta, teólogo e mestre das letras Carlos Cunha. Ele passava seus tempos de ócio lendo dicionários e fazia grandes descobertas com isso.

Nessas incursões, descobrimos regências de verbos (muitas diferentes do que pensávamos e usávamos), gêneros de palavras (quem ainda não tem dúvida se alface é feminino ou masculino?), alguns vocábulos que devem ser tratados como plural sempre em suas concordâncias (como óculos), e outros exemplos. Mas o que eu tenho gostado muito são as palavras estrangeiras que já mostram grafia aportuguesada, como o adjetivo viquingue.

Adoro esse tipo de surpresa

Quando eu ainda era militar, lá pelos idos do início dos anos 1990, um sargento usou o termo “capacete de viquingue” (falando assim mesmo, paroxítona), para perturbar alguém com traição da mulher e tal. Enfim, eu estranhei, mas achei legal. Seria uma forma de traduzir e aportuguesar o “viking”, que só é paroxítono (em nossa pronúncia) porque a sílaba “-king” é uma só.

Pesquisando, não me lembro como nem onde, mais de 20 anos depois, encontrei a palavra “viquingue”, do jeitinho que o sargento Carlos falou. Fiquei feliz e fui ao Volp. Lá também tem o viquingue. Legitimou-se. Animei-me. Em um dicionário português (de Portugal), encontrei “víquingue”. Proparoxítona. Mas no nosso Volp, não existe essa forma. Olha, aposentei o “viking” dos meus textos em português. Uma surpresa viquingue muito bem-vinda para mim.

Há muitos outros exemplos

Existem muitas palavras, como viquingue, já escritas da maneira como nós, brasileiros, falantes do chamado “português americano” (da América Latina, assim nos classificam os que falam o “português europeu”), pronunciamos.

Viquingue (“viking”), leiaute (“layout”) e checape (“check up”) talvez sejam algumas palavras que não sabemos que já estão aportuguesadas na grafia. Mas outras já usamos há muito tempo e não percebemos, como futebol (“football”), golfe (“golf”), rúgbi (“rugby”), pôquer (“poker”), uísque (“whisky”), estresse (“stress”), chope (“chopp”), drinque (“drink”), bufê (“buffet”) e tantas outras.

Escrever do nosso jeito, usando a grafia para evidenciar nossa língua portuguesa, mostra que não só adentramos aquela cultura, mas adaptamos a palavra ao nosso jeito. Com isso, abandonamos a síndrome do colonizado.


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