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Mandando a Letra

Concordo em gênero, número e… grau?

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Talvez alguém já tenha dito que concordava em gênero, número e grau com você. Quiçá foi afirmação sua em algum momento esse tipo de apoio. Muitos já sabem que há um equívoco aí. Mas tem como encontrar uma explicação? E será que ela é verdadeira?

Vamos começar pela concordância

Concordar com as ideias ou atitudes de alguém acaba nos levando à palavra igualzinha “concordar” que reside no mundo morfossintático. Neste caso, palavras relacionadas a outras precisam ter flexão igual a elas. Falamos de relação de numerais, adjetivos e artigos, pelo menos, com substantivos. Exemplo: O menino bonito se casou.

Se mudamos a flexão do substantivo, o adjetivo e o artigo também precisam ser modificados: é a concordância. Veja: Os meninos bonitos se casaram. A menina bonita se casou. Isso é simples. Claro que há a concordância verbal, e você percebeu quando o substantivo foi para o plural e jogou o verbo para essa condição.

Mas onde está a confusão?

Bem, substantivos flexionam-se em gênero e número, mas durante muito tempo incluiu-se, nesse meio, o grau. Vamos recordar: gênero tem a ver com masculino e feminino (menino – menina). Já o número mostra se é singular ou plural (meninos – meninas). A gradação (o grau) já é demonstração de aumentativo e diminutivo em várias modalidades (meninão – menininha; bonitíssimo, muito bonito, o mais bonito).

Ocorre que muitos estudiosos perceberam que o grau não se encaixava nessa forma de flexão, por não exigir tal concordância, configurando-se, apenas, uma derivação, e com característica opcional. Veja que se deve dizer “menina bonita” (alterando o bonito para concordar com a menina), mas não é obrigatório dizer “menininha bonitinha”, permitindo-se “menininha bonita”.

Sempre há uma explicação

Diante de tal constatação, entendemos que a expressão pode vir da época em que ainda se tratava a gradação como uma forma de flexão. Quem ainda não pensou nisso (ou nem sabia) continuou a equivocada tradição.

Para concordar sem erro, poder-se-ia trocar o grau pelo caso. Este exigiria mais tempo e espaço para uma explicação, mas trata-se dos casos nominativo, dativo, genitivo, por exemplo, usados por línguas como latim, grego e alemão. Assim, concorde em “gênero, número e caso”, que não tem erro, ou somente em “gênero e número”, já é suficiente. Afinal, você não vai precisar considerar uma “casíssima belíssima”.

Mesmo assim, há quem afirme que “concordar em gênero, número e grau” seja uma forma de ter a mesma opinião de alguém em tudo, até mesmo em aspectos para o qual não se exija tal atitude: “Concordo com você até quando não é preciso”. Será? Há quem arrume desculpa para tudo, não é?


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