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Fatos, nem tão, isolados que afetam do mercado ao futuro das famílias

Como os valores do IGP-M e do IPCA são abordados no aumento das passagens do metrô e podem influenciar diretamente no que podemos esperar para os próximos anos

Por Gilvan Bueno 14/05/2021 3h31
Fatos, nem tão, isolados que afetam do mercado ao futuro das famílias

O mundo pós-pandemia vem apresentando desafios diários para todos nós. Nas empresas, é bem óbvio que há necessidades urgentes, principalmente quanto aos seus modelos de negócios, que precisam se reinventar, que precisam criar novos produtos do zero. Tal necessidade acaba provocando falências, grandes construções de riqueza e, para quem gosta do mercado de ações, gerando valor ao acionista.

Nesse contexto, as empresas de concessão pública apresentam novos desafios. Presenciamos, por exemplo, a privatização da Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro) e os nomes da Eletrobras e da EBC estão sempre em discussão. Porém, hoje queria chamar a atenção para o MetrôRio. Só que antes de chegar na estação mais próxima (atenção para o espaço entre o trem e a plataforma), te convido a uma viagem ao ano de 1989, quando foi criado o Índice Geral de Preços – Mercado, o famoso IGP-M, conhecido também como ‘inflação do aluguel’. Pode escolher a forma de chamá-lo. Esse índice mostra a percepção do atacado, como ele funciona, enfim, um verdadeiro termômetro da economia. Esse termômetro é um combo com 60% de IPA, 30% de comércio e 10% de construção civil.

Quando eu penso no atacado, preciso pensar no custo via IGP-M. Já, quando eu penso no custo das famílias, preciso entender o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), que é uma referência para os reajustes de salário mínimo. Desta forma, você tem dois grandes personagens principais: de um lado o atacado e do outro o varejo; seu salário sendo reajustado a 6%, o IPCA dos últimos 6 meses, e o IGP-M numa alta de mais de 32%, muito influenciado pelo custo do dólar, já citado aqui nesta coluna algumas vezes. Essa diferença tem se mostrado um grande desafio para as famílias, afinal, seu custo de vida aumenta drasticamente.

Agora que já estamos conceituados, saltemos daquela viagem de metrô de 1989 para o momento atual.

Antes da pandemia, o MetrôRio transportava cerca de 900 mil pessoas diariamente. Atualmente, são 390 mil pessoas por dia. A empresa alega que a demanda caiu, mas o custo continua o mesmo. Por isso, precisa fazer um reajuste nos preços. Tudo bem, entendemos. Se você é empresário, sabe que o seu custo fixo precisa descer já que o faturamento desceu. Mas, o Metrô Rio alega que continua operando com toda sua capacidade. Tudo bem, entendemos. Mas, de quanto será esse reajuste? Será de 16%. Isso tudo? Mas, por que?

Lembra do IGP-M, que falamos ali em cima? É através dele que o MetrôRio faz seus reajustes, devido ao alto gasto de energia elétrica, entre outros itens que fazem parte do escopo do índice. Vemos aqui que ele não está reajustando pela valorização do trabalhador, que seria o IPCA e seu reajuste anual de cerca de 6%, que é a inflação oficial do Brasil.
Perceba como existe um ‘descasamento’ na história.

De um lado você tem o custo das famílias, do outro você tem o custo das empresas, que se for maior do que o da família acaba prevalecendo. Um grande ensinamento para quem está pensando em ideias de modelos de negócio. Porém, é preciso entender também que existe um endividamento da empresa, que aumentou para mais de R$ 600 milhões. Ou seja, a situação é a seguinte: queda da demanda, custos continuam nas alturas e o endividamento é alto. Como a empresa faz para reverter isso? Vamos aumentar o preço! Porém, nesse caso, o aumento do preço é maior do que o reajuste do salário das famílias.

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Pausa na análise para frisar algo muito importante: no dia a dia da economia, existem fatores que não conseguimos ver rapidamente, mas que influenciam muito nossas vidas.

Continuemos com mais alguns dados interessantes que abordei na minha postagem no LinkedIn (me segue lá, Gilvan Bueno): o percurso do carioca é de apenas 51 quilômetros. Para tê-lo, a população paga a passagem mais cara do Brasil, R$ 5,80. Como São Paulo, que tem uma malha com quase o dobro de extensão da do Rio de Janeiro, cerca de 101 quilômetros, cobra R$ 4,40? Será que é a demanda maior? Será que o custo é mais baixo? Como pode um estado ter mais extensão metroviária e cobrar menos? A resposta é: vá entender! São critérios da precificação.

Voltemos agora a nossa combinação interessante de fatos, nem tão, isolados que acabam lentamente se aglomerando e criando grandes transformações. Pensem comigo. Se fôssemos fazer uma simples pergunta, sem o estudo de todos esses dados, com a questão: como IGP-M, isolamento social, custo fixo, queda da demanda e preço das passagens estão diretamente relacionados? Tenho certeza de que antes de ler esse texto, você teria mais dificuldade em responder.

E mesmo respondendo, tenho certeza de que você está com o sentimento de que sabe exatamente quem é o mais prejudicado nessa história. E está certíssimo: a população!

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Pensa o seguinte: há uma família brasileira que usa o transporte urbano. Agora, essas pessoas precisarão refazer o orçamento e buscar onde cortar para crescer e conseguir continuar usando esse transporte. Se esse corte for na educação, na aquisição de um livro e outros bens do tipo, culturalmente e a longo prazo, essa família vai ficar com menos conhecimento, menos capacidade de gerar renda em gerações. E aí, nós teremos um empobrecimento ainda maior da população.

Questão curiosa, não é? Um fato isolado, um aumento de passagem que trouxe para nós conceitos tão importantes.

Como diz a conhecida canção: “Como será o amanhã / Responda quem puder”.

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