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O jornalismo e as torcidas

A reação de autoridades e outros à denúncia contra Greenwald é mais do que correta. Acendeu-se um sinal mais do que amarelo de ameaça à liberdade de imprensa

Rudolfo Lago

Publicado

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Para muitos, a década de 1990 marcou o melhor momento do jornalismo político brasileiro. Dois episódios destacaram o trabalho de repórteres a partir de Brasília e mudaram os rumos do poder e da política do país. O primeiro foi o caso PC Farias, que levou ao impeachment do então presidente Fernando Collor. O segundo foi o escândalo dos anões do Orçamento, que obrigou o Congresso Nacional a sair de seu corporativismo cortando na própria carne, cassando e punindo deputados e senadores. Os dois episódios caracterizam-se pelo total protagonismo da imprensa. Os fatos foram desvendados e detalhados pelos jornalistas.

Uma mudança significativa ocorrida com o fortalecimento do Ministério Público e da Polícia Federal e com o enfraquecimento da imprensa a partir da atual crise do jornalismo é que esse protagonismo se inverteu. Hoje, na maioria das vezes, os repórteres têm somente publicado o resultado das apurações e investigações que são feitas por procuradores e policiais que, a partir de uma relação de confiança, lhes vazam o conteúdo.

O caso da Vaza Jato, como se batizou a série de reportagens que vem sendo publicada pelo site The Intercept e outros veículos, trouxe mais uma novidade nesse relacionamento. Conteúdos obtidos a partir da ação de hackers nas redes de relacionamento que hoje todos nós temos na internet. É, evidentemente, uma novidade, não um ponto fora da curva. Basta lembrar, por exemplo, que os relatos da união de um jornalista veterano com uma jovem hacker são o mote de uma das mais celebradas séries de bestsellers do momento, a saga sueca “Millenium”.

Em todas as situações há sempre a discussão sobre os limites éticos e legais que envolvem o exercício do jornalismo. E, em linhas gerais, a primeira coisa a nortear esses limites será o interesse público.
No caso que envolve diretamente agora o jornalista Green Greenwald, é justamente a manutenção da lamentável guerra de torcidas que outra vez vai empanando a compreensão do que é o trabalho dos jornalistas.

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Uma das últimas reportagens publicadas pelo Intercept trata justamente da relação entre jornalistas e os procuradores da força-tarefa da Lava Jato. A reportagem questiona essa relação, e afirma que jornalistas, no acerto com suas fontes, poderiam ter ultrapassado limites éticos.

Mas é justamente a possível ultrapassagem de limites na relação com as fontes que fez com que o procurador Wellington Oliveira considerasse poder apresentar denúncia contra Greenwald.

A reação de autoridades e outros à denúncia contra Greenwald é mais do que correta. Acendeu-se um sinal mais do que amarelo de ameaça à liberdade de imprensa. Porém, da mesma forma, nada parece indicar muito claramente que os jornalistas que tinham relação com os procuradores da Lava Jato da mesma forma tenham avançado além dos seus limites legais e éticos. Nos dois casos, as conversas parecem fazer parte do tipo de negociação comum que há entre jornalistas e fontes antes da publicação de matérias.

Em um ou outro caso, para se concluir acerca de limites ultrapassados ou não, é preciso que as avaliações não se contaminem pelas paixões.

Em 1917,o senador americano Hiran Warren Johnson disse que, “numa guerra, a primeira vítima é a verdade”. Na atual guerra de torcidas que virou o debate político brasileiro, perderemos todos nós se a vítima se tornar a verdade.

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