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É fato: o grande risco para Bolsonaro é a fake news

Quando o Supremo Tribunal Federal iniciou o inquérito sobre fake news agia de uma forma corporativa, distorcida. Os ministros, especialmente o presidente do STF, Dias Toffoli, estavam muito preocupados com o próprio umbigo

Rudolfo Lago

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Quando o Supremo Tribunal Federal iniciou o inquérito sobre fake news agia de uma forma corporativa, distorcida. Os ministros, especialmente o presidente do STF, Dias Toffoli, estavam muito preocupados com o próprio umbigo, feridos na sua vaidade, assustados com denúncias contra eles mesmos.

Havia ali naquele momento um Supremo que parecia a ponto de se matar a cada sessão. Ministros batendo boca de forma constrangedora, explicitando posicionamentos políticos a cada julgamento. Era o tempo do “você é uma pessoa horrível”, na célebre discussão entre Luiz Roberto Barroso e Gilmar Mendes. Naquele primeiro momento, uma primeira reação a tudo isso foi a sugestão no Congresso de criação da CPI Lava Toga. A percepção era de que havia algo de podre no Judiciário que precisava ser desvendado.

O inquérito começou com problemas por ter sido instaurado sem a manifestação do Ministério Público. Pela escolha sem sorteio de Alexandre de Moraes para conduzir as investigações. Mas a verdade é que, apesar do início torto, o inquérito das fake news atirou no que viu e acertou o que não viu.

Acabou por tropeçar de fato na cada vez mais clara evidência da existência de um esquema que alimenta o mundo de notícias falsas e de ódio contra grupos e pessoas. Um esquema que parece ter como base o próprio Palácio do Planalto, a partir do tal “Gabinete do Ódio”. Um esquema que, operado pelo filho do presidente, o vereador Carlos Bolsonaro, ajudou a construir boa parte da consolidação da candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência. Que tem sólidos patrocinadores, empresários que financiam a estrutura. E que chegou ao ponto de instalar no quarto de um hotel de luxo em Brasília uma dupla que trabalhava o plano (ou pelo menos declarava isso) de matar juízes e outras personalidades.
Se não houve CPI Lava Toga, há no Congresso uma CPI das Fake News. E foi nela que a deputada Joice Hasselmann fez o primeiro relato mais detalhado de como o sistema funcionava.

Há dois termos do mundo da internet que precisam ser fixados para entender como tudo acontece: “bots” e “trolls”. “Bot” é uma abreviatura de “robots”, ou seja, robôs. Os “bots” são as figurinhas instaladas para multiplicar o conteúdo pelas redes. Na maioria das vezes, são mesmo perfis falsos, são robôs. Mas há alguns perfis verdadeiros também que se prestam a essa tarefa. Sua tarefa é entrar nas mais variadas páginas, comentando, disseminando opiniões e conduzindo o debate político para onde desejam aqueles que os alimentam. Os “trolls” são as figuras do ódio. Os que entram para agredir e xingar as pessoas na rede. A armadilha aí é cair na pilha deles. Quando alguém responde a um troll, multiplica seu comentário da sua bolha para as outras. É o caminho, então, para que novos “bots” e novos “trolls” entrem e multipliquem mais o conteúdo desejado.

Finalmente, é preciso existir tal conteúdo. É onde entram os sites que produzem as fake news. É necessário que esses sites produzam as notícias falsas que os “bots” vão compartilhar nas redes. Para completar, além do objetivo político alcançado, ter um site de fake news torna-se um lucrativo negócio. Ao contrário de um veículo que produz notícias verdadeiras, um site de fake news dispensa maiores investimentos, além da criatividade. Produzir notícias verdadeiras implica ter repórteres, jornalistas, que saiam às ruas em busca dos fatos para relatar. Nada disso é necessário para produzir fake news. Com a ajuda dos “bots” para disseminar tais mentiras, os sites ganham em visibilidade e audiência nas redes. Assim, acabam ganhando crédito nos algoritmos das ferramentas usadas para definir às empresas onde colocar seus anúncios.

Na investigação que vem sendo conduzida, o funcionamento de tal esquema vai se tornando mais claro. E parece estar tornando incontestável na visão da maioria dos ministros que desvendá-lo inteiramente é imprescindível. Na linha do voto de Fachin, pontos precisam ser ajustados para que o inquérito não dê ao Supremo poderes plenos para investigar – ou mesmo censurar – tudo e todos.
E está aí o grande ponto de fragilidade que hoje atormenta o presidente Bolsonaro e o Palácio do Planalto. De fato, o desdobramento da investigação é hoje para ele o grande risco. Especialmente se os fatos ali forem compartilhados também no julgamento da chapa que venceu as eleições pelo Tribunal Superior Eleitoral. E tudo indica que isso também acontecerá.

De qualquer modo, qualquer que seja o desfecho, tal investigação é imprescindível. Porque a existência de tais esquemas compromete duramente a democracia. No final de tudo, é ela que tem que ser preservada.


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