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Coluna Informação #040 – 100 mil Aparecidas

Questões de família são assuntos íntimos. Cada família tem suas idiossincrasias, seus segredos, seus passados

Rudolfo Lago

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Não cabe aqui discutir as razões pelas quais a primeira-dama Michelle Bolsonaro não tinha uma relação mais próxima com a sua avó materna Maria Aparecida Firmo Ferreira. Questões de família são assuntos íntimos. Cada família tem suas idiossincrasias, seus segredos, seus passados. Mas não deixa de chamar a atenção que a morte de Aparecida, no Hospital Regional da Ceilândia, tenha sido recebida pelo governo Jair Bolsonaro com a mesma frieza e indiferença que vem sendo dispensada às mais de 100 mil pessoas que, desde o início da pandemia, já pereceram vítimas do novo coronavírus.

Avó da primeira-dama, Maria Aparecida não mereceu do presidente nenhum comentário a respeito de seu drama pessoal. Mesmo a própria Michelle só divulgou ontem uma nota de pesar depois de provocada por seu primo Edardo D’Castro, após uma constrangedora troca de farpas e acusações pelas redes sociais. A nova direita da qual Bolsonaro faz parte tem uma característica que no passado não se via em outros movimentos políticos que se associaram a posicionamentos conservadores, que é ter como um de seus princípios a negação da ciência. O positivismo, fortíssimo no meio militar do qual Bolsonaro tem sua origem, tinha proposta oposta. Pregava que o conhecimento científico é a única forma de conhecimento verdadeiro. É tão forte no meio militar e forjou tão fortemente a ideologia política das Forças Armadas que a bandeira do Brasil após a proclamação da República, que nada mais foi que um golpe militar, traz no meio dela a frase “Ordem e Progresso”, uma adaptação do lema positivista “O amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim”.

O fascismo italiano tinha como braço cultural e artístico o movimento futurista que pregava as belezas do progresso tecnológico trazido pela Revolução Industrial. Fazia em seu manifesto, por exemplo, loas ao “automóvel de corrida”, com “seu cofre enfeitado com tubos grossos, semelhantes a serpentes de hálito explosivo”. E, ainda que distorcida por diversos preconceitos, a ciência estava no cerne do nazismo alemão. A Alemanha, antes de derrotada, estava bem mais avançada na pesquisa aeroespacial e atômica. Houve, inclusive, uma ação na Segunda Guerra Mundial, batizada de Operação Alsos, na qual Estados Unidos e Grã-Bretanha trataram de sequestrar cientistas alemães que se incorporaram ao Projeto Manhattan, que criou a primeira bomba atômica. A direita atual nega a ciência. Considera que o conhecimento científico faz parte de algum tipo de conspiração de esquerda. Ao negar a ciência, negou a existência e gravidade da covid-19. Se a ciência diz que a covid-19 é uma doença altamente contagiosa e com forte grau de letalidade, cabe à direita atual insistir que se trata de uma “gripezinha”.

Nesse sentido, a avó de Michelle, independentemente das suas questões familiares, torna-se um imenso incômodo. A constatação veemente de que há um imenso problema na construção desse discurso. Cada uma das mais de 100 mil pessoas que foram vitimadas pela covid-19 atrapalha a ideia dita e repetida por Bolsonaro de que é “uma gripezinha”. Cada atleta, como a senadora Leila Barros, destrói a ideia de que a doença nada representa para quem tem “físico de atleta”. As informações de que a letalidade da covid-19 entre jovens cresceu 18 vezes e, em abril, eles já representavam 26% do total de mortes, fulmina a ideia de que a doença não é grave para quem tem menos de 60 anos.

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O problema é que boa parte das famílias talvez tenha bem mais dificuldades de ignorar a morte de seus parentes próximos. E, de novo, ninguém está aqui discutindo as razões particulares desse distanciamento. Os brasileiros estão vendo seus familiares, amigos, pessoas próximas, sofrendo e perecendo com a doença. E talvez se espantem com a frieza com que o governo trata esses acontecimentos. Dizer que isso poderia ser resolvido, como disse o presidente, se todos tivessem tomado cloroquina, de novo é mascarar a raiz do problema, uma vez que não explica, por exemplo, porque somente 22 pessoas morreram na Nova Zelândia desde o início da pandemia, onde não consta informação sobre o uso da medicação que Bolsonaro defende, mas, sim, um rigoroso processo de isolamento social, que ele condena.

Infelizmente, a doença ainda avança. E isso é muito doloroso. E, a cada avanço da doença, vai ficando mais difícil compreender por que muitos julgam que negar a ciência seja uma questão ideológica e não de absoluta cegueira. O vírus, que não tem partido nem distingue ideologias, agradece.




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