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Coluna Informação #034 – Choque de realidade

O bolsonarismo vive um momento de reflexão. Desde o início da pandemia do novo coronavírus, mas especialmente após o desenrolar do inquérito das fake news

Rudolfo Lago

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O bolsonarismo vive um momento de reflexão. Desde o início da pandemia do novo coronavírus, mas especialmente após o desenrolar do inquérito das fake news e a prisão de Fabrício Queiroz, o modelo de governo do presidente Jair Bolsonaro andou tendo choques de realidade. Para sobreviver, contraiu-se e aceitou flexibilizar-se, aproximando-se mais do centro e aceitando as sugestões dos “especialistas em política” do Centrão e da ala considerada hoje mais moderada dos militares no governo.

Foi o ensaio do momento “Jairzinho Paz e Amor” que começou a se esboçar após a recriação do Ministério das Comunicações e a entrega do posto ao deputado do Centrão Fábio Faria. Que continuou com a demissão de Abraham Weintraub do Ministério da Educação. E que seguiria com a escolha de Carlos Decotelli para substituí-lo. Mas a confusão provocada por Decotelli com os diversos problemas no seu currículo, o movimento de enfraquecimento da ala ideológica olavista do governo gerou um tremendo soluço no movimento.

Evidentemente que os movimentos que diminuíam a força da ala ideológica não aconteciam sem reação interna. Há uma tremenda guerra interna no governo, que fica mais explícita em determinados momentos e se acalma em outros. As declarações dadas por Bolsonaro na manhã de ontem sobre Decotelli mostram o tamanho da sua irritação com a escolha. Ele aceitou uma indicação feita pelos moderados e deu com os burros n’água. O currículo de mentirinha apresentado pelo ex-quase ministro provocou imenso constrangimento. Os olavistas voltaram a se movimentar. Andam doidos para encontrar um outro Weintraub talvez um pouco menos circense para colocar no lugar do que saiu.

A confusão congelou também outros movimentos que já se esboçavam. Como as trocas de Ernesto Araújo nas Relações Exteriores e de Ricardo Salles no Meio Ambiente. Os dois passaram a se movimentar em busca de apoios e da apresentação de feitos que contestem a visão de que são um problema e que atrapalham o país.

Ocorre, porém, que o choque de realidade que empana o grupo mais ideológico prossegue. Há uma realidade no planeta após a pandemia do novo coronavírus que todos os dias aponta que alguns dos preceitos da nova direita não se sustentam. Que se tratam não de preceitos ideológicos mas, sim, de uma visão distorcida de mundo. Alguns dos movimentos da nova direita atribuem a determinados consensos planetários uma visão política que não existe. Acreditam que determinados movimentos científicos, econômicos e de defesa do meio ambiente fazem parte de certa conspiração de esquerda que só existe na cabeça deles.

Vem daí a negação da ciência e da academia. Como se todos os cientistas e acadêmicos do mundo fossem de esquerda, coisa que, evidentemente, eles não são. Diante da uma situação planetária que só terá solução a partir da ciência, tal tese entrou em profundo colapso. A preocupação ambiental no planeta é parte desse consenso científico. A pandemia do novo coronavírus está inserida nos riscos ambientais que a humanidade corre no momento. Os coronavírus chegam às cidades vindos das populações silvestres que se aproximam mais porque estamos destruindo as suas florestas.

A ala ideológica tem dificuldade de compreender que tais conclusões no mundo não acontecem porque o mundo é comunista. Acontece porque assim se constata. Assim, nossa visão negacionista da pandemia já começa a desfazer negócios e investimentos. A China para de comprar carne. A Europa retalia a América do Sul e em consequência o país. Fundos de investimentos voltados ao meio ambiente tiram daqui os seus dólares.

Após o vexame de Decotelli, está o governo às voltas com seus dilemas. Pode usar o currículo fake para seguir negando e peitando o choque de realidade. Ou pode tentar um outro nome mais moderado e pragmático que tenha um currículo de verdade…


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