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Coluna Informação #033 – Além da praga de gafanhotos

Para o cientista político André Cesar, a parte mais radical e conservadora do governo confunde conceitos que hoje são consenso entre a maioria no planeta

Rudolfo Lago

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Com a população padecendo com uma peste e agora enfrentando uma praga de gafanhotos, o presidente Jair Bolsonaro talvez pudesse reclamar da providência divina diante dos seus males. De fato, a coisa parece mesmo ganhar ares de passagem bíblica do Velho Testamento.

Ainda que os tempos tenham revisto e amenizado a ideia de um Deus vingativo e da sua ira divina, a mensagem que a Bíblia já tentava transmitir no Velho Testamento a seus seguidores já era de que nada acontece de graça. Ou seja: se Deus se vingava do seu povo, é porque o seu povo alguma coisa, para os olhos de Deus, tinha aprontado.

Claro, ninguém pode jogar sobre Bolsonaro a responsabilidade sobre a pandemia do novo coronavírus ou agora sobre a praga de gafanhotos. Mas pode, sim, questioná-lo quanto ao que fazer diante desses e de outros problemas. Na verdade, pior que a peste ou a praga de gafanhotos, vai ficando meio claro para muitos dos que estão no jogo planetário que o grande problema hoje do Brasil é a forma como está sendo conduzido.

Na semana passada, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, teve a oportunidade de dizer isso diretamente ao presidente em uma reunião. A ministra lhe disse algo que tem sido repetido por alguns: o que segura o país de sofrer uma crise ainda maior é o seu agronegócio. Mas se o Brasil continuar comprometendo como anda comprometendo a sua imagem externa, vai levar o agronegócio também para o buraco. Segundo uma fonte do Ministério da Agricultura, nas últimas semanas, a ministra já ensaiou arrumar as suas gavetas pelo menos duas vezes. Pragmática, ela se exaspera com a posição do presidente e de alguns que não parecem enxergar que dinheiro não tem ideologia, dinheiro não tem carteirinha de partido.

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Para o cientista político André Cesar, da Hold Assessoria, a parte mais radical e conservadora do governo confunde conceitos que hoje são consenso entre a maioria no planeta com questões ideológicas a partir de uma confusa e equivocada noção de que fariam parte de um tal “globalismo”.

Atribuem questões como a defesa ambiental a um discurso de esquerda, “comunista”.
Em primeiro lugar, no mundo globalizado, e não “globalista”, não há muito espaço para se ser comunista. Nem Cuba ou China conseguem mais ser. Isolado do restante do mundo, hoje, talvez mesmo só a Coreia do Norte.

O que há, na verdade, no mundo dos negócios internacionais, é algo conhecido pela sigla ASG: Ambiental, Social e Governança.

Ou seja, o que define a decisão sobre em qual país os grandes investidores vão colocar dinheiro é a percepção de que há ali compromisso ambiental, social e estabilidade política, que é a tradução da governança.

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Hoje, o Brasil tem dificuldades de ser visto aos olhos dos investidores como um país comprometido com essa sigla. É visto como um país que nega a existência do novo coronavírus. De país até então considerado liderança na área ambiental, virou o grande vilão. Fundos importantes de investimentos vão, assim, deixando o país. E não é apenas a Noruega. Já se fala de uma fuga talvez de trilhões de dólares.

Como dinheiro não tem carteirinha de partida, é um erro imaginar que, nessa questão pragmática de negócios, haja uma grande diferença no posicionamento dos ambientalistas ou de uma representante do agronegócio como Tereza Cristina. Se, na sintonia fina ela tem uma visão diferente quanto à defesa do meio ambiente, a grosso modo ela sabe que para vender carne, por exemplo, precisa hoje de determinados selos de qualidade que são exigidos. E que vão ficando mais difíceis de serem obtidos em um país que considera que a covid-19 é uma “gripezinha”.

“Por maior que seja a produção agrícola brasileira, oferta não falta no mundo”, observa André Cesar. “Fica difícil a situação se estamos hoje em um governo cuja única agenda parece ser a sobrevivência do presidente e a sobrevivência dos seus filhos”.




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