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Acordes dissonantes

O antropólogo Piero Leiner, professor da Universidade Federal de São Carlos, joga luz sobre a estratégia que vem sendo adotada pelo presidente Bolsonaro

Rudolfo Lago

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As tropas estão posicionadas. Precisam avançar sobre o território do inimigo. Para tanto, instala-se uma cabeça de ponte: um ponto de contato na área do adversário, a partir do qual se iniciará a batalha. Para desorientar o inimigo, parte da tropa desvia-se para um outro ponto, dando a falsa sensação de que ali vai se concentrar o combate. Quando, na verdade, a invasão maciça de fato acontece por outro lugar.

O parágrafo acima poderia resumir, por exemplo, a tática usada pelas tropas aliadas contra o exército alemão para invadir a Normandia, no célebre Dia D que virou o destino da Segunda Guerra Mundial.

Mas, além de episódios de guerra, o primeiro parágrafo resume, na visão do antropólogo Piero Leiner, professor da Universidade Federal de São Carlos, a estratégia que vem sendo adotada pelo presidente Jair Bolsonaro e por seu governo desde as eleições do ano passado. Com doutorado em 2001 pela Universidade de São Paulo, Leiner estuda desde a década de 1990 estratégias e táticas militares. E defende que as idas e vindas, as informações desencontradas, o avança e recua do governo em muitos momentos, as brigas que ninguém entende, estão longe de ser simplesmente uma grande confusão. Tudo isso – ou, pelo menos, boa parte de tudo isso – teria método. Seria a aplicação na política de algo conhecido há muito tempo nas casernas como “Estratégia Militar Dissonante”.

Da aplicação de táticas explicitamente militares, como no desembarque da Normandia, a estratégia evoluiu para o uso de manobras de comunicação, de informação, contrainformação e desinformação especialmente a partir da Guerra Fria, nas décadas de 1950 e 1960. Desembocou no que ganhou o nome de “Guerra Híbrida”, que associa elementos de informação à guerra tradicional. É aí que entram, no contexto da guerra, a disseminação de fake news e ciberataques.

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A aplicação política desses métodos se dá especialmente a partir da Rússia com Vladimir Putin e dos Estados Unidos, com Donald Trump, onde se desenvolve pelas ideias de Steve Bannon na campanha de Trump. Para Leirner, a utilização no Brasil na campanha eleitoral foi clara. E, diante da eleição de Bolsonaro, revelou-se um incontestável sucesso.

E permanece agora, segundo ele, como “grande estratégia”. Leiner considera que, no governo, vive-se um contexto diferente do da mera disputa eleitoral. “mas a ideia é basicamente a mesma”, completa. “Alguém no governo prepara um simulacro de desordem. E, em seguida, o próprio governo produz a solução de ordem”. Exemplo: o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) sugere a criação de um “novo AI-5”. O presidente Jair Bolsonaro o desautoriza.

“Como se dá essa operação? Frequentemente se lança um “cabeça de ponte” para criar um fato; todo mundo morde a isca, enquanto se prepara um desembarque em que efetivamente a questão colocada é tratada de forma definitiva”, continua. Para Leirner, a seguida repetição de tais situações parece deixar claro que não seria mera confusão fortuita. “Isso é uma ação coordenada, proposital. Estamos vendo isso se repetir tantas vezes – semanalmente até – que já deveria ter ficado óbvio. Mas não ficou, continua bem efetivo”.

Então, por exemplo, o novo presidente da Fundação Palmares é um negro que nega o racismo e vê vantagens na escravidão para as gerações futuras. “Para que esta engenharia funcione, o ideal é que ela seja feita por agentes que acreditem no que estão falando”, diz Leiner. Leirner alerta que não é somente uma tática diversionista. Tais coisas não são ditas, segundo ele, somente para criar uma cortina de fumaça e desviar foco. Ideias são lançadas e testadas. Avançam ou não de acordo com a reação. “É preciso entender uma coisa: eles sempre vão dobrar a aposta. Testar as situações até o limite. E o que efetivamente é realizado passa como sendo uma meta ponderada, ou às vezes como um recuo”, completa.

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Para Leirner, temos de entender que parece ter havido uma mudança de parâmetros. É preciso dizer que isso foi promessa de campanha: ir contra a política. Então, nada há para se espantar. Tempos novos… Cujas ideias precisam ser deglutidas e compreendidas…


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