Quando falamos em videogames, as primeiras imagens que surgem na cabeça quase sempre vêm carregadas de memória afetiva. Pode ser a infância dividindo controle com alguém da família, uma live recente, um evento cheio ou aquela jogatina despretensiosa na casa de amigos. Jogar faz parte da rotina de milhões de pessoas. O que quase nunca entra nessa conversa é quem fica de fora desse universo, não por falta de vontade, mas por falta de acesso.
No Brasil, jogar videogame já é caro para muita gente. Para pessoas com deficiência, a dificuldade é ainda maior. Além dos preços altos de consoles e jogos, existe a barreira da acessibilidade. Controles adaptados, essenciais para que muitas pessoas consigam jogar, podem custar milhares de reais. Um valor distante da realidade da maioria.
Segundo dados do IBGE, o país tem cerca de 15 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência, entre visual, auditiva, física e intelectual. Além disso, aproximadamente 2,4 milhões de pessoas estão no espectro autista. É dentro desse cenário que atua a AbleGamers Brasil, organização dedicada a tornar os videogames mais acessíveis.

A AbleGamers Brasil é liderada por Christian Bernauer, diretor-presidente e fundador do projeto no país. “A AbleGamers Brasil é um projeto focado em inclusão e acessibilidade de pessoas com deficiência por meio do videogame”, explica. A iniciativa é afiliada à AbleGamers internacional, criada nos Estados Unidos e referência mundial no tema. “A gente é uma entidade independente, mas afiliada à AbleGamers de lá, que foi um dos primeiros projetos do mundo a falar de acessibilidade em jogos”, conta.
No Brasil, o trabalho começou em 2017, inicialmente com ações voluntárias. Em 2021, a organização se estruturou formalmente. “Foi quando a gente fundou a AbleGamers Brasil como a primeira instituição do país voltada exclusivamente para pessoas com deficiência nos jogos”, afirma Christian.
Um dos eixos mais conhecidos do trabalho da organização é o desenvolvimento de controles adaptados. “A gente atua principalmente em três frentes, e a primeira delas é a dos controles”, explica. Esses dispositivos podem ser personalizados para cada pessoa, levando em conta a limitação motora, o tipo de deficiência, o jogo preferido e a plataforma utilizada. “Muita gente entra em contato com a gente porque quer jogar e não consegue. A gente faz todo um atendimento online, entende o que a pessoa consegue fazer e cria um controle adaptado específico para ela”, detalha.
Esse atendimento remoto não é por acaso. “A gente sabe que, muitas vezes, é difícil para a pessoa se deslocar”, comenta. Durante muito tempo, esses controles foram doados sem custo para quem precisava, justamente por se tratarem de equipamentos caros e difíceis de obter.

Com o tempo, a AbleGamers percebeu que o controle, apesar de fundamental, não resolve tudo. “O controle resolve o problema de uma pessoa por vez e, principalmente, de quem tem deficiência física, mas para pessoas com deficiência visual, auditiva ou neurodivergências, o controle não é suficiente. O jogo precisa ser acessível.”
A partir dessa constatação, a organização passou a investir fortemente na formação de desenvolvedores. “A gente não quer fazer jogo. A gente sabe que fazer jogo é difícil. O que a gente sabe é como tornar um jogo acessível.” Um dos principais programas é o APX, sigla para Accessible Player Experience, ou Experiência Acessível do Jogador. É um curso baseado nos padrões de design criados pela AbleGamers. Hoje, já são mais de mil pessoas formadas no mundo, e no Brasil temos dezenas de profissionais capacitados”, diz.
Durante a conversa, Christian também comentou sobre um mito recorrente relacionado às pessoas com deficiência e aos games. “Existe essa ideia de que a pessoa com deficiência não consegue jogar, mas quando alguém não consegue jogar, muitas vezes o problema não é a pessoa, é o jogo ou o desenvolvimento.”
Ele cita exemplos que desmontam esse pensamento. Há jogadores com deficiência visual que competem em jogos de luta e pessoas tetraplégicas que jogam títulos como Valorant, Call of Duty e Fortnite utilizando controles acionados com a boca. “Isso mostra que é totalmente possível jogar quando existem as ferramentas certas.”
Os números ajudam a dimensionar o impacto do trabalho. “Só neste ano, a gente deve chegar a mais de 80 controles doados.” Nos últimos dois anos, esse número ultrapassa a marca de 100. Além disso, há atendimentos que não resultam em doação, mas em ajustes, orientações e suporte técnico.
A visibilidade da AbleGamers também cresceu com a presença em grandes eventos. “A gente participa da Brasil Game Show, da CCXP, da gamescom latam, entre outros. Essa atuação ajuda a conscientizar o público e também contribui para a sustentabilidade do projeto, junto com cursos, palestras, doações e serviços.”
Outro ponto importante é a atuação junto ao poder público. Hoje, controles adaptados sofrem a mesma carga tributária de outros eletrônicos, com impostos que podem chegar perto de 60 por cento. “A gente ajudou na proposição de dois projetos de lei que tratam da isenção de impostos para controles adaptados”, explica. Um deles é federal e o outro tramita no estado de São Paulo. Além disso, a organização promove um abaixo-assinado para ampliar o debate e mostrar que acessibilidade em jogos é um tema coletivo. Que pode ser assinado através do link: https://bit.ly/PLControlesAdaptados, se você está lendo isso, por favor, assine.
Para Christian, a discussão vai muito além do videogame. “Não é sobre o jogo em si, é sobre o que o jogo traz”, reflete. “É conversar com amigos, participar de comunidades, criar conteúdo, trabalhar, sonhar.” Ele lembra histórias de pessoas que conseguiram realizar sonhos através dos games, como quem sempre quis ser piloto de corrida e encontrou nas corridas virtuais uma forma de viver isso, que é o caso do Fabrício, um dos membros fundadores do EboGamers.
“O controle adaptado é só um pedaço de plástico”, resume. “Ele é a ferramenta. O que realmente importa é o que ele permite: pertencimento, conexão e oportunidades.”
A AbleGamers Brasil pode ser acompanhada pelo site ablegamers.org.br e pelas redes sociais no @ablegamersbr. Acompanhe também no YouTube no canal AbleGamers Brasil (https://www.youtube.com/watch?v=q9I7vwmS8ns). Ali também estão informações sobre doações, projetos, cursos e formas de apoio. Tornar os games mais acessíveis não beneficia apenas pessoas com deficiência. Torna esse universo mais diverso, mais humano e melhor para todo mundo.