A Mother Gaia, estúdio brasileiro, teve a brilhante ideia de usar as obras de Machado de Assis para criar um jogo. Hoje vamos conhecer mais sobre A Investigação Póstuma.
A premissa do jogo chama atenção. Você é um detetive contratado por Brás Cubas, um magnata carioca que está morto. Ele te prende em um loop temporal até que você descubra quem o assassinou. Você então se torna basicamente um refém de defunto.
O mesmo dia se repete, e isso torna o jogo interessante. Cada personagem segue uma rotina específica, com horários, encontros e até conflitos que se repetem. Cabe a você observar, aprender e usar essas informações a seu favor. É quase como montar um quebra-cabeça, aqui cada detalhe pode mudar tudo completamente.
Não pense que é do tipo de jogo em que basta sair perguntando tudo para todo mundo. As escolhas aqui fazem a diferença. Pressionar alguém, revelar uma informação no momento errado ou simplesmente seguir a pessoa certa na hora certa pode abrir caminhos totalmente diferentes. O jogo te dá essa liberdade, sem deixar de te desafiar.
Para uma apaixonada pelo nosso querido Rio de Janeiro, aqui o jogo já me ganhou nos primeiros segundos, quando na tela aparece “Rio de Janeiro, 1937”, em uma pegada noir, com clima de investigação clássica de antigamente. O visual em preto e branco ajuda a construir essa atmosfera, inspirada no cinema e na literatura, além de entregar uma ilustração maravilhosa.
Esse é um dos pontos legais do projeto. Ele é uma grande homenagem a Machado de Assis. Conhecemos vários personagens e elementos de diferentes obras do autor, que o estúdio reuniu para a construção da história, usando sarcasmo, crítica social e aquele humor ácido já conhecido por quem acompanha seus textos.
Falamos com Felipe Cancian Bertozzo, cofundador do Mother Gaia Studio e um dos nomes por trás do projeto, que começou de um jeito bem orgânico. “A gente tinha um protótipo de jogo de investigação com loop temporal e começou a pensar em como trazer algo mais brasileiro para a ideia. Quando percebemos que todo mundo da equipe tinha uma conexão com Machado de Assis, tudo simplesmente encaixou”.
Faz sentido, certo? Se você tem um jogo em que conversa com mortos, por que não usar um dos mortos mais famosos da literatura brasileira?

O visual também passou por uma transformação interessante durante o desenvolvimento. Começou em pixel art, mas mudou quando a equipe decidiu abraçar uma estética mais alinhada com o clima da narrativa. “Nosso diretor de arte começou a buscar referências no cinema noir, especialmente aqueles filmes antigos em preto e branco. Foi um processo gradual até chegar nesse resultado final”, explica Felipe.
Isso fica nítido quando batemos o olho no jogo, que apresenta uma forte personalidade e é coerente com o que está tentando contar.
A mecânica do loop temporal teve uma inspiração curiosa. “A gente se baseou muito em Feitiço do Tempo. A ideia de aprender a rotina das pessoas e usar isso para avançar na investigação veio muito daí”, conta.
Claro que nem tudo foi fácil no desenvolvimento. Quando perguntei sobre o maior desafio até o momento, Felipe conta que foi fazer a história funcionar de forma não linear. “Cada jogador pode seguir caminhos diferentes, então tudo precisava fazer sentido independentemente da ordem das ações”.
O jogo conta com muitas referências diretas a obras como Memórias Póstumas de Brás Cubas, O Alienista e Dom Casmurro, todas coexistindo no mesmo universo. Legal, né?
O jogo poderá chegar com até 12 horas de gameplay, dependendo de quem joga. Para quem ficou curioso, já é possível testar a demo, com aproximadamente 2 horas de conteúdo e a possibilidade de continuar o progresso no jogo completo.
Depois de mais de 5 anos de desenvolvimento, o jogo chega no dia 31 de março. Vale ficar de olho. Não é todo dia que vemos um jogo misturar literatura clássica, investigação, loop temporal e noir. A Investigação Póstuma foge do óbvio e oferece uma experiência que valoriza a criatividade dos jogos independentes.