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Ronaldinho, alegria em estado puro – e um documentário à altura

O nosso eterno R10 é um caso raro de unanimidade afetiva. Ele não era apenas admirado – era querido. E isso faz uma diferença enorme

Marcondes Brito

02/05/2026 5h17

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Reprodução

Confesso: só no feriado do Dia do Trabalho consegui parar para maratonar a série documental sobre Ronaldinho Gaúcho na Netflix. Esperei o momento certo – e valeu a pena. Foi uma dessas experiências que você começa sem pretensão e, quando percebe, já foi levado de um episódio ao outro sem conseguir parar. Muito por causa do personagem, claro. Mas também pela qualidade da produção, que é, de fato, muito bem feita.

Há um desafio evidente na proposta: condensar mais de duas décadas de história em algumas poucas horas. E isso aparece em alguns momentos. Ainda assim, o saldo é amplamente positivo. A série acerta ao entender que Ronaldinho não é apenas um jogador para ser analisado – é um fenômeno para ser sentido.

E poucos jogadores foram tão capazes de provocar isso. Ronaldinho deu alegrias em escala quase absurda. Alegria mesmo, no sentido mais puro da palavra. Não era só eficiência, não era só talento – era prazer em jogar. Talvez, na história do futebol brasileiro, só Garrincha tenha se aproximado tanto disso: a capacidade de transformar o jogo em espetáculo espontâneo, em diversão compartilhada com quem assistia.

A série captura bem essa essência. Mostra o Ronaldinho que encantou o mundo, que redefiniu o que era possível fazer com uma bola e que deixou marcas profundas por onde passou. E não apenas nos clubes, mas também nas pessoas. É impressionante como o documentário reforça algo que sempre foi perceptível: a veneração quase unânime que ele desperta entre jogadores.

Lionel Messi, admiração genuína

Um dos pontos mais fortes é justamente esse reconhecimento vindo de dentro do próprio futebol. O carinho e a gratidão de Lionel Messi, por exemplo, não são protocolares. São genuínos. Messi admite, sem rodeios, a importância de Ronaldinho no início da sua trajetória no Barcelona. Não é exagero dizer que ali houve uma passagem de bastão simbólica – e a série trata isso com a devida sensibilidade.

Outro mérito é não fugir completamente dos momentos difíceis. O episódio da prisão no Paraguai aparece como o ponto mais delicado da narrativa. E, ainda assim, o que chama atenção é a forma como Ronaldinho atravessa aquilo: com um certo distanciamento, quase com leveza, mantendo traços do bom humor que sempre o caracterizou. É um retrato curioso de alguém que parece lidar com a vida – até nos momentos mais duros – sem perder a própria essência.

Também há espaço para mostrar o lado mais íntimo, especialmente a relação com a família e com o irmão, elementos fundamentais na construção da sua carreira. Esse olhar ajuda a humanizar ainda mais um personagem que, por vezes, parece quase folclórico.

O que fica é uma constatação simples: Ronaldinho é um caso raro de unanimidade afetiva. Ele não era apenas admirado – era querido. E isso faz uma diferença enorme.

Basta comparar com nomes da geração atual. Neymar, por exemplo, é um fenômeno técnico, mas divide opiniões como poucos: é amado por muitos e rejeitado por outros tantos. Vinícius Júnior, por sua vez, enfrenta algo ainda mais grave – uma campanha de racismo que impacta diretamente a forma como ele se expressa em campo e fora dele. Nenhum dos dois consegue transmitir aquela leveza quase contagiante que Ronaldinho exalava naturalmente.

Ronaldinho tinha algo difícil de explicar e impossível de fabricar: ele se fazia amado, inclusive pelos adversários. E talvez seja esse o maior legado que a série consegue resgatar. Mais do que gols, títulos ou dribles, o que ele deixou foi uma sensação. Uma alegria coletiva que atravessava rivalidades e transformava o futebol em algo maior.

E isso, convenhamos, é para pouquíssimos.

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