Em 2002, Luiz Felipe Scolari tomou uma das decisões mais duras da história da seleção brasileira: deixou Romário fora da Copa do Mundo. Aos 36 anos, o atacante ainda era competitivo, decisivo e reunia condições claras de disputar o torneio. Foi um choque nacional, um drama que dividiu opiniões e colocou o técnico sob enorme pressão.
Mesmo assim, Felipão bancou. Assumiu o risco e seguiu com o grupo que acreditava ser o mais adequado. E o tempo tratou de reforçar o tamanho daquela decisão. Depois da Copa, Romário seguiu em alto nível e, pelo Vasco, foi artilheiro do Campeonato Brasileiro com 22 gols — prova de que ainda tinha futebol para competir no mais alto nível.
É justamente aí que a comparação com Neymar se impõe. Aos 34 anos, o camisa 10 brasileiro vive um cenário completamente diferente. Sem sequência, com problemas físicos recorrentes e sem conseguir manter regularidade, ele está longe de demonstrar o nível exigido para uma Copa do Mundo.
Ou seja, o Romário que ficou fora em 2002 estava mais preparado do que o Neymar de hoje.
A discussão ganhou novo combustível após a declaração de José Mourinho, que criticou Carlo Ancelotti e classificou como desrespeito a ausência do atacante. “Imagine Portugal deixar Cristiano Ronaldo de fora ou a Argentina deixar Messi. Você não pode tirar Neymar da seleção a menos que seja um acordo mútuo. É um enorme desrespeito. Ele cometeu um erro”, afirmou o treinador.
A fala tem impacto, mas ignora a realidade. Não se trata de desrespeito, mas de condição. Convocar um jogador sem ritmo e sem capacidade de competir no mais alto nível é que seria um erro. Seleção não é homenagem, é desempenho.
Ancelotti, assim como Felipão em 2002, está diante de uma escolha que envolve risco. Se levar, pode comprometer o desempenho. Se não levar e perder, será cobrado. Faz parte do cargo. A diferença é que, desta vez, o argumento técnico parece ainda mais evidente.
A provocação está posta. E a resposta, ao que tudo indica, também.