Em tempos em que a rivalidade no futebol costuma ser confundida com ódio, intolerância e desejo de aniquilação do outro, Minas Gerais ofereceu nesta sexta-feira, 2 de janeiro, uma aula simples, simbólica e necessária. No dia em que o Cruzeiro completou 105 anos de fundação, a diretoria do Atlético Mineiro usou as redes sociais para parabenizar o maior rival. O Cruzeiro respondeu de forma igualmente respeitosa e elegante.
Na cabeça do torcedor comum, de qualquer clube, a lógica quase sempre é a do extermínio simbólico do adversário. O atleticano, no íntimo, gostaria de ver o Cruzeiro acabar. O cruzeirense sente o mesmo em relação ao Galo. No Rio, o torcedor do Flamengo sonha com o Vasco atolado em dívidas; o vascaíno, por sua vez, adoraria ver o rival em ruínas. Em São Paulo, Corinthians e Palmeiras vivem essa tensão permanente. No Sul, Grêmio e Internacional. O futebol se alimenta desse fla-flu eterno, que hoje, inclusive, extrapola o esporte e se mistura a disputas ideológicas.

Esse impulso é compreensível, mas equivocado
O futebol vive de rivalidade, sim, mas rivalidade não é sinônimo de ódio. Clubes rivais crescem juntos. Um dá sentido à existência do outro. O que seria do Cruzeiro sem o Atlético? E o que seria do Atlético sem o Cruzeiro? Basta lembrar que, quando o Cruzeiro esteve à beira do abismo esportivo e institucional, afundado na Série B, o América começou a ocupar esse espaço e a se consolidar como um novo rival mais competitivo para o Galo. O vácuo nunca fica vazio.
Não adianta tentar convencer o torcedor a abandonar a paixão exacerbada. Isso não vai acontecer. Mas é papel dos clubes, das instituições e da imprensa mostrar que a rivalidade pode e deve existir dentro de padrões mínimos de civilidade. E foi exatamente isso que Galo e Raposa fizeram.
Na mensagem publicada, o Atlético desejou que a rivalidade fosse sempre saudável e que ajudasse a engrandecer Minas Gerais. O Cruzeiro respondeu no mesmo tom, reconhecendo que essa disputa histórica fortalece o futebol do estado. Um gesto simples, direto, sem ironias, sem provocações, sem veneno.
As mensagens também refletem o momento institucional vivido pelos clubes, hoje organizados como SAFs. Gestões profissionais não eliminam a rivalidade, mas ajudam a colocá-la no lugar certo: dentro do campo.
O futebol precisa de paixão, provocação e disputa. Mas também precisa de limites. Nesta sexta-feira, Minas Gerais mostrou que é possível rivalizar sem perder a civilidade. Um recado que vale muito mais do que parece.