O Real Brasília anunciou que não vai disputar a edição de 2026 do Campeonato Brasileiro Feminino da Série A. A decisão tira da competição o único representante do Distrito Federal na elite da modalidade e provoca frustração em atletas, torcedores e em quem acompanha o futebol feminino no país.
Na nota oficial, o clube atribui a desistência à saída do patrocinador master, alegando que a perda do apoio financeiro inviabilizou a participação no torneio. O argumento chama atenção porque, poucos dias antes, o próprio Real Brasília vinha publicando mensagens exaltando o apoio recebido ao longo da temporada de 2025. O contraste entre o discurso recente e a decisão final reforça o clima de surpresa em torno do anúncio.
O desfecho ganha peso quando lembramos do que foi publicado nesta coluna, em outubro, sobre o pedido de recuperação judicial do clube. Na ocasião, Luís Felipe Belmonte, o presidente do Real Brasília, entrou em contato para contestar informações financeiras e esclarecer os números do processo.
Segundo ele, a dívida total gira em torno de R$ 8,9 milhões, e não R$ 48 milhões. O valor maior, explicou, aparecia em um gráfico que somava despesas acumuladas e projeções operacionais, mas não representava o passivo consolidado. Uma diferença de conceito contábil, como fez questão de destacar.
Mais importante do que os números foi o tom adotado naquele momento. O dirigente garantiu que a recuperação judicial tinha como objetivo reorganizar a casa, ajustar compromissos e dar fôlego financeiro ao clube. Disse, com convicção, que em dois anos tudo estaria resolvido. O discurso foi tão seguro que a coluna decidiu registrar sua versão e, sinceramente, torcer para que o projeto desse certo.
Dois meses depois, porém, o clube abre mão de disputar a principal competição do futebol feminino brasileiro, um espaço cobiçado por dezenas de equipes no país inteiro.
Não cabe aqui retomar o mérito técnico da recuperação judicial nem reabrir a discussão daquele momento. O fato concreto é o desfecho. Entre a promessa de reorganização e a realidade, o intervalo foi curto demais. E o prejuízo esportivo e institucional é grande demais para ser tratado como algo trivial.
O futebol brasileiro já ensinou, inúmeras vezes, que promessas de dirigentes precisam ser ouvidas com atenção, mas sempre com cautela. O caso do Real Brasília apenas reforça essa velha e incômoda lição.