Menu
Futebol ETC
Futebol ETC

Racismo no futebol: quando a “tolerância zero” só aparece depois do vexame

O racismo no futebol não é novidade, não brotou agora por geração espontânea – ele é antigo, recorrente e conhecido por todo mundo que frequenta estádio

Marcondes Brito

22/02/2026 11h18

screenshot

screenshot

A FIFA adora esse vocabulário de manual corporativo: “tolerância zero”, “política reforçada”, “sanções exemplares”. No papel, parece o último bastião da civilização contra o racismo. Na prática, a sensação é de que o problema só vira prioridade quando dá dor de cabeça jurídica, risco de patrocínio e ameaça de crise institucional. O racismo no futebol não é novidade, não brotou agora por geração espontânea – ele é antigo, recorrente e conhecido por todo mundo que frequenta estádio. Mas, curiosamente, só vira “intolerável” quando a conta chega em forma de multa milionária e possibilidade de exclusão em competição internacional.

O caso da agressão sofrida por Vinícius Jr, envolvendo Gianluca Prestianni, do Benfica, coloca em teste a promessa da FIFA de tolerância zero ao racismo. Desta vez, a entidade deixou claro que as punições não se limitam ao jogador acusado do ato discriminatório: o clube também entra no alvo e pode sofrer sanções esportivas e institucionais, caso fique caracterizada falha na prevenção, na conduta ou na resposta ao episódio.

Para o jogador, o pacote de punições previsto é pesado. A Comissão Disciplinar da FIFA trabalha com suspensão mínima de dez partidas, multa pessoal que pode variar de 500 mil a 1 milhão de euros e a obrigatoriedade de participação em programas de educação antidiscriminatória. Em caso de agravantes — como reincidência, intenção clara de ofender, falta de arrependimento ou comportamento desafiador após o episódio — a suspensão pode ser ampliada para um período bem superior a 12 jogos, com impacto direto na carreira e na exposição do atleta.

Já para o Benfica, as consequências podem ir além do constrangimento institucional. O clube corre o risco de sofrer multas elevadas, sanções esportivas e até penalidades que afetam sua participação em competições, caso fique comprovado que houve omissão, tolerância interna ou tentativa de minimizar o ocorrido. Em cenários mais graves, a FIFA pode impor perda de mando de campo, jogos com portões fechados e outras medidas que atingem diretamente o caixa e o desempenho esportivo do clube.

O recado que a entidade tenta dar é que o combate ao racismo não será mais tratado como problema individual de um jogador “que se excedeu”, mas como uma responsabilidade compartilhada. Se o clube não cria ambiente, regras e punições internas claras, passa a ser corresponsável. E, nesse modelo, o prejuízo deixa de ser apenas moral: vira esportivo, financeiro e de imagem.

Agora, resta saber se a FIFA vai sustentar esse discurso quando a decisão final for anunciada. Se cumprir o que promete, o episódio entra para a lista dos raros momentos em que o sistema resolveu punir de verdade. Se aliviar, o futebol seguirá repetindo a velha encenação de indignação que dura até a próxima rodada.

Quem é Gianluca Prestianni?

Até o episódio de racismo contra Vinícius Júnior, Gianluca Prestianni era um nome praticamente invisível fora dos círculos de observadores de base. Aos 20 anos, o atacante argentino revelado pelo Vélez Sarsfield chegou à Europa cercado de rótulos como “promessa” e “prodígio”, mas, na prática, ainda não conseguiu se firmar em lugar nenhum. Contratado pelo Benfica em 2024 por cerca de 9 milhões de euros, ele oscila entre o time principal e o Benfica B, sem protagonismo, sem números expressivos e sem qualquer marca relevante no futebol profissional até aqui.

No currículo, há convocações para seleções de base da Argentina e uma estreia discreta pela seleção principal em amistoso contra Angola, em 2025 — um daqueles jogos que passam quase despercebidos no calendário internacional. Fora isso, não há títulos, não há atuações memoráveis, não há momentos que o coloquem no radar do grande público. O que o projetou ao noticiário mundial não foi um golaço, uma decisão em final ou uma temporada de afirmação, mas um ato de racismo que pode lhe render uma punição pesada e, ironicamente, acelerar o risco de ele voltar ao anonimato de onde nunca chegou a sair de verdade no futebol de alto nível.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado