O Real Madrid pode ter um elenco multimilionário, jovens estrelas valorizadas no mercado europeu e uma estrutura que nenhum outro clube do mundo consegue igualar. Ainda assim, afunda. E esse afundamento, por mais contraditório que pareça, ajuda a explicar por que Carlo Ancelotti pode ter sido a escolha certa para comandar a Seleção Brasileira.
A leitura vem de dentro do clube. Em entrevista ao jornal espanhol Diario AS, o atacante Joselu, jogador do Real Madrid atualmente emprestado ao Al-Gharafa, do Catar, fez uma análise que foge do óbvio. Ele não falou de esquema tático, saída de bola ou pressão alta. Falou de sentimento.
Segundo Joselu, Ancelotti entendeu à perfeição o que significa o Real Madrid. Mais do que um treinador, exerceu o papel de uma espécie de pai do elenco, do clube e da torcida. Um técnico que sabia lidar com egos, proteger jogadores e, sobretudo, fazer o time compreender o peso da camisa que vestia.
O Real Madrid atual, sob o comando de Xabi Alonso, é organizado, estudado, metódico. Cumpre funções, executa ideias e respeita conceitos modernos do jogo. Mas, como sugere o ex-atacante, perdeu algo essencial ao longo do caminho. Falta reação nos momentos difíceis. Falta o impulso emocional quando o futebol não aparece. Falta o algo a mais que sempre caracterizou o clube.
Essa leitura serve como espelho para a Seleção Brasileira. O Brasil também tem talento de sobra, jogadores que atuam nos maiores clubes do mundo e nomes capazes de decidir partidas. O que não tem, há algum tempo, é identidade. Joga bem em alguns momentos, mas não se impõe. Atua, mas não assusta. Entra em campo, mas raramente pesa.
É justamente aí que o perfil de Ancelotti ganha sentido. Não como o técnico revolucionário, nem como o estrategista obcecado por números, mas como o gestor que entende que futebol, em alto nível, também se joga com confiança, pertencimento e liderança emocional.
O atual declínio do Real Madrid ensina que dinheiro e talento, sozinhos, não garantem vitórias. O sucesso do Real de Ancelotti mostrou o contrário: quando o elenco sente o clube que representa, sempre entrega algo além.
Para a Seleção Brasileira, que há anos procura esse algo a mais, talvez esteja aí um fio de esperança. O caminho para o hexacampeonato pode não passar por uma nova revolução tática, mas por alguém capaz de fazer o jogador voltar a sentir o peso e o orgulho de vestir a camisa amarela.
