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O preço do apito: entre os aplausos de Maluf e o silêncio da filha

20 anos depois, a coluna Futebol Etc relembra o rumoroso caso da Máfia do Apito, o maior escândalo do futebol brasileiro

Marcondes Brito

09/02/2026 5h11

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Reprodução

O cenário é uma carceragem fria em São Paulo. De um lado da grade, Paulo Maluf; do outro, Edílson Pereira de Carvalho. O político, raposa velha dos escândalos nacionais, aplaude o recém-chegado com ironia: “Obrigado, Edílson”. Naquele momento bizarro, o árbitro FIFA havia conseguido a proeza de tirar a corrupção de Brasília das manchetes para estampar a vergonha nas quatro linhas. Maluf sabia que o povo perdoa desvio de verba, mas não perdoa pênalti roubado.

Para o leitor, vale o resgate histórico: o ano era 2005 e o palco, o maior torneio do país. Edílson foi o protagonista da “Máfia do Apito”, um esquema que contaminou o Brasileirão de forma inédita. A descoberta de que resultados eram vendidos para agradar apostadores obrigou o STJD a tomar uma medida drástica: 11 partidas foram anuladas. A tabela virou de cabeça para baixo, o Internacional perdeu a liderança, o Corinthians assumiu a ponta nos jogos remarcados e a fé do torcedor foi quebrada. O campeonato daquele ano sempre terá um asterisco moral.

Vinte anos depois, o relato de Edílson ao podcast de Cosme Rímoli (R7) não é sobre impedimentos ou faltas. É sobre a ruína total de um homem que vendeu a alma por R$ 68 mil. Uma quantia que, hoje, soa ridícula perto da devastação que comprou. Ele admite que era um “ótimo árbitro” tecnicamente, o que torna o crime ainda mais doloroso: não errava por incompetência, mas por ganância. Recebia pacotes de dinheiro vivo no aeroporto, sentindo-se intocável, sem saber que estava precificando o fim da própria vida.

A confissão é visceral e humana. O homem que ostentava o escudo da FIFA viu-se reduzido a tentar a sorte com um revólver. “A bala furou o telhado”, conta, sobre uma das três tentativas de suicídio. A vida foi poupada, mas cobra juros diários impagáveis. Edílson perdeu o casamento, a carreira e o respeito. Mas a pena máxima não veio do tribunal desportivo, e sim de dentro de casa: ele perdeu a voz da própria filha, que hoje não lhe dirige a palavra.

O “dinheiro fácil” evaporou. Restou a solidão de quem virou sinônimo de “juiz ladrão”, uma etiqueta que nenhuma decisão judicial remove. Edílson queria ser lembrado pelos grandes jogos, mas será eternamente o homem que faliu a credibilidade do futebol brasileiro. Maluf estava certo naquele dia na prisão: Edílson roubou a cena, mas pagou um ingresso caro demais para um espetáculo que ele jamais conseguirá esquecer.

screenshot
A coluna na edição impressa do Jornal de Brasília

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