Não há ingenuidade possível quando o assunto são casas de apostas. Elas movimentam dinheiro, estimulam vício, provocam perdas individuais e exigem vigilância constante. Esse debate existe, é legítimo e precisa continuar. O que chama atenção, porém, é a desigualdade do olhar público diante de problemas de natureza muito diferente, mas de impacto igualmente devastador.
Enquanto o país discute, com razão, o dinheiro que o cidadão perde nas apostas, outro volume de recursos, muito maior e muito mais silencioso, simplesmente desapareceu do sistema financeiro sem provocar a mesma mobilização social.
Em 2025, já sob regulamentação, as casas de apostas registraram uma receita bruta de R$ 37 bilhões. O número impressiona não por qualquer glamour do jogo, mas pela escala. Parte desse montante, cerca de 12%, tem destinação obrigatória prevista em lei, com repasses definidos e fiscalização formal. Isso não transforma o setor em exemplo de virtude, mas o coloca sob permanente exposição pública.
O caso do Banco Master seguiu caminho oposto. Não houve holofotes, alerta prévio ou debate proporcional ao risco que se acumulava. Quando o problema veio à tona, o estrago já estava distribuído pelo sistema financeiro. A estimativa aponta para um impacto de aproximadamente R$ 47 bilhões sobre o Fundo Garantidor de Créditos, além de uma exposição na casa dos R$ 12 bilhões do BRB.
Esse dinheiro não foi perdido em apostas nem resultou de decisões individuais de risco. Ele estava ligado a mecanismos criados justamente para oferecer segurança: poupança, bancos digitais, recursos protegidos e, em muitos casos, valores associados à aposentadoria de milhares de pessoas. Ainda assim, o tema passou quase sem indignação pública, sem campanhas e sem o tom alarmista que costuma acompanhar outros debates.
É aí que o contraste se torna incômodo. Existe vigilância constante sobre o dinheiro que o cidadão decide arriscar, mas quase nenhuma mobilização diante do dinheiro que simplesmente some das engrenagens do sistema financeiro. Um prejuízo difuso, invisível e, por isso mesmo, mais fácil de ser naturalizado.
No Brasil, discute-se com razão o dinheiro que o cidadão perde quando joga. O que ainda não se discute com a mesma urgência é o dinheiro que o país perde quando ninguém está olhando. Entre o barulho das apostas e o silêncio dos grandes rombos, talvez o problema não esteja no jogo, mas na escolha de onde apontar os holofotes.