Passados nove meses da posse de Samir Xaud, o que deveria ser um período de renovação e saneamento institucional na Confederação Brasileira de Futebol (CBF) revela-se, tragicamente, mais um capítulo de um roteiro exaustivamente conhecido. A entidade máxima do nosso futebol, que gere uma das marcas mais valiosas do planeta, volta a conviver com a sombra densa e onipresente da interferência política em suas engrenagens vitais. Reportagem recente do jornal O Estado de S. Paulo expõe uma realidade alarmante: medidas que deveriam ser puramente técnicas e estratégicas continuam reféns de um jogo de poder que acontece longe dos gramados, repetindo um padrão histórico que insiste em não ser superado.
A gravidade da situação reside nos detalhes. Entre as iniciativas anunciadas pela nova gestão, duas áreas nevrálgicas – a arbitragem e o departamento financeiro – tornaram-se foco de preocupação. Não por suas diretrizes técnicas, mas por quem as coordena. Ambas as pastas estão, hoje, sob a tutela de dirigentes com fortes e inegáveis ligações políticas com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Ao entregar as chaves do cofre e o comando do apito a apadrinhados de Brasília, a CBF reforça a percepção nociva de que continua extremamente vulnerável a articulações institucionais alheias ao interesse esportivo.
Paralelamente a essa ocupação de espaços administrativos, cresce de forma tentacular a influência do Instituto Brasileiro de Direito Público (IDP) nos bastidores da entidade. À frente dessa iniciativa estratégica está Francisco Schertel Mendes, filho do ministro Gilmar Mendes.
O ministro do STF também é sócio do IDP, desempenhou papel central nos episódios mais recentes da crise institucional que assola a Confederação. Foi de sua caneta que saiu a decisão que, inicialmente, manteve Ednaldo Rodrigues na presidência, a despeito das graves denúncias de fraude na eleição de 2022. E, meses depois, numa reviravolta que expõe a fragilidade jurídica, serviu ara ejectar Ednaldo da cadeira de presidente.
O futebol brasileiro, infelizmente, nunca teve sorte com seus mandatários. A cadeira de presidente da CBF parece amaldiçoada pela falta de ética: alguns foram afastados, outros banidos, outros presos.
Nem mesmo João Havelange, o homem que transformou a FIFA em uma potência global multibilionária, escapou do julgamento implacável da história. O dirigente, outrora intocável, terminou seus dias associado a um esquema de corrupção tão vasto que teve seu nome retirado até do estádio olímpico que o homenageava, o atual Engenhão. É o símbolo máximo da decadência moral que contamina o esporte.
Com cinco títulos mundiais, um peso simbólico inigualável e um manancial inesgotável de talentos que brotam de norte a sul, o Brasil merecia – e exigia – uma gestão decente, transparente e blindada de interesses escusos. Enquanto isso não acontece, a CBF segue presa a um paradoxo antigo e doloroso. E o pior é que esse filme já passou, o final é conhecido, mas a plateia continua pagando o ingresso.
