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Naming rights no futebol: quando o dinheiro compra o nome, mas não a memória

O futebol não é um produto qualquer. Ele é construído sobre memória, tradição e identidade. Por isso, existe uma resistência orgânica. O torcedor até reconhece um novo nome, mas não o adota

Marcondes Brito

13/04/2026 5h05

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Reprodução

A troca no naming rights do estádio do Palmeiras, com a saída da Allianz e a possível entrada do Nubank, recoloca em pauta uma discussão recorrente no futebol brasileiro: até que ponto o investimento pesado em um nome garante presença real na cultura do torcedor? O Allianz Parque, consolidado ao longo dos anos como referência, pode ganhar uma nova identidade comercial, mais valiosa do ponto de vista financeiro, mas isso não significa necessariamente que será chamado assim no dia a dia.
Do ponto de vista de mercado, a mudança é lógica. O contrato anterior já era visto como defasado diante da nova realidade de investimentos no futebol, especialmente com a entrada agressiva de empresas do setor financeiro e de apostas. O Nubank surge como um parceiro disposto a pagar mais.
O problema começa quando se tenta transformar essa operação comercial em mudança cultural. O torcedor não acompanha essa lógica com a mesma velocidade. Ele continua indo ao Allianz Parque, independentemente do nome que venha a ser estampado na fachada. Esse descompasso não é exceção, é regra.
O caso do São Paulo Futebol Clube ilustra bem esse fenômeno. O Morumbi virou Morumbis após acordo com a marca de chocolate Bis, mas o nome histórico permaneceu intacto no vocabulário popular. Agora, com o fim do contrato, surge a possibilidade de uma nova troca, com a entrada da BYD, o que poderia transformar o estádio em algo como MorumBYD. A pergunta é direta: alguém realmente adotou o nome anterior a ponto de justificar uma nova mudança? A resposta continua sendo não.
O mesmo acontece com o campeonato nacional. Oficialmente, o Brasileirão passou a se chamar Brasileirão Betano. No entanto, fora dos documentos e das ativações comerciais, o que prevalece é o nome de sempre. O torcedor não incorporou o patrocinador à identidade da competição.
Esse cenário evidencia uma diferença fundamental entre visibilidade e relevância cultural. Naming rights entregam exposição, presença e repetição. Isso tem valor de mercado, retorno de mídia e lógica empresarial.
Mas relevância cultural é outra coisa. Ela depende de adoção espontânea, de hábito, de pertencimento. E isso não se compra.
O futebol não é um produto qualquer. Ele é construído sobre memória, tradição e identidade. Estádios e campeonatos são mais do que ativos comerciais. São símbolos que atravessam gerações.
Por isso, existe uma resistência orgânica, quase invisível. O torcedor até reconhece o novo nome, mas não o adota. Ele aceita formalmente, mas mantém o costume.
O mercado pode mudar placas, contratos e cifras. Mas mudar a forma como o torcedor chama as coisas continua sendo um desafio que o dinheiro, sozinho, ainda não conseguiu vencer.

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A coluna Futebol Etc na edição impressa do Jornal de Brasília

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