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Futebol ETC
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Müller, lembra dele? Ex-jogador diz que jogou mais do que Neymar, Mbappé, Henry e Kaká

Esse tipo de entrevista não mede quem jogou mais. Mede quem topa brincar de ser maior do que a própria biografia

Marcondes Brito

20/02/2026 5h05

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Virou moda no Brasil e no mundo um tipo de entrevista-relâmpago quase sempre feito com ex-jogadores: o repórter solta nomes em sequência e o entrevistado responde, no impulso, quem “jogou mais” ou quem “foi melhor”. É você ou Zidane? Você ou Maradona? Em poucos segundos, décadas de história do futebol viram um quiz de autoestima. O problema é que, nesse formato acelerado, o ego costuma correr mais rápido que a memória.

O modelo rendeu memes impagáveis nas redes sociais. Humoristas passaram a ridicularizar esse tipo de entrevista levando a lógica ao limite do absurdo: “quem foi melhor, você ou Jesus Cristo?” – e o personagem responde que, no auge, foi melhor. “Você ou Santos Dumont?” – em matéria de aviação, eu. “Você ou Ayrton Senna?” – eu fui melhor piloto. “Você ou Pelé?” – joguei mais. 

A graça está justamente em escancarar o delírio de grandeza que esse formato pode estimular quando alguém resolve responder tudo falando sério.

Müller estava falando sério 

Foi nesse espírito que viralizou uma entrevista recente com Müller (clique aqui). No bate-bola, o ex-jogador afirmou, sem muito constrangimento, que jogou mais do que Arrascaeta, Depay, Gabigol, Haaland, Vini Jr., Mbappé, Neymar, Henry, Ibrahimovic, Kaká e outros tantos. A única concessão veio na comparação com Messi – ainda assim acompanhada de uma ponderação: para ele, o melhor da história seria Maradona.

Não se trata de negar a carreira de Müller. Ele passou por São Paulo, Palmeiras, Santos, Corinthians, Cruzeiro, teve experiências no exterior, rodou por vários clubes e conseguiu algo que poucos conseguem: longevidade no futebol profissional. Isso é mérito e ponto. Mas existe uma diferença grande entre ter uma carreira honesta e se colocar, com ar solene, acima de alguns dos maiores nomes do futebol mundial das últimas décadas.

Quando o currículo real entra em campo, a comparação vira constrangedora. Müller não foi protagonista de Copa do Mundo, não empilhou títulos internacionais de peso, não redefiniu posições, não marcou época no futebol mundial e não é referência histórica fora do Brasil. Foi um jogador útil, com momentos relevantes em clubes importantes, mas sem impacto estrutural no jogo. Nada que o coloque, com seriedade, no mesmo patamar simbólico de Neymar, Mbappé, Henry, Kaká ou mesmo de craques de outras gerações.

No fim, esse tipo de entrevista não mede quem jogou mais. Mede quem topa brincar de ser maior do que a própria biografia. O formato empurra o ex-jogador para uma armadilha: se responde com modéstia, vira “sem graça”; se responde com sinceridade histórica, perde o viral; se entra na pilha, vira personagem de si mesmo.

Talvez o maior mérito involuntário desse modelo seja expor como o futebol também virou produto de corte rápido, frase chamativa e resposta exagerada. A história do esporte não cabe em um “quem foi melhor?”. Mas o algoritmo adora fingir que cabe. E, nesse jogo específico, quem costuma vencer não é o futebol — é a vaidade.

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