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Futebol ETC
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Irmão de Otamendi publica montagem racista com Vinícius Jr e revolta as redes sociais

Não há explicação para essa compulsão dos argentinos contra nós; e isso vem de muitos anos

Marcondes Brito

26/02/2026 13h48

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Reprodução

A imagem é grotesca, ofensiva e inaceitável. Uma postagem atribuída a @gabrielotamendi30, o irmão de Nicolás Otamendi, zagueiro do Benfica e da seleção argentina, vazou nas redes sociais exibindo uma montagem em que o rosto de Vinícius Júnior aparece inserido no corpo de um macaco. O conteúdo, compartilhado em perfil privado, circulou rapidamente e expôs mais uma vez o nível de desumanização a que o jogador brasileiro vem sendo submetido.

O episódio se soma a uma sequência de ataques racistas envolvendo argentinos e tendo Vinícius Júnior como alvo. Não é um ruído isolado, nem uma “brincadeira fora de tom”. É a repetição de um padrão que insiste em atravessar gerações no futebol sul-americano e europeu: o uso da imagem do macaco como instrumento de humilhação racial contra brasileiros, especialmente jogadores negros.

A repercussão chegou a páginas internacionais. O site inglês de humor futebolístico Troll Football ironizou o episódio e chegou a sugerir que se “arrancasse as redes sociais” do autor da postagem. A frase vem embalada em tom de piada, mas desnuda o tamanho do absurdo: a barbárie é tamanha que até páginas de zoeira sentem a necessidade de apontar o ridículo e a gravidade da situação.

Isso vem de longe

O que hoje aparece em formato de story de Instagram já foi manchete de jornal impresso. Em 1996, durante os Jogos Olímpicos de Atlanta, o diário esportivo argentino Olé estampou na capa, após a vitória da Argentina sobre Portugal, a frase “Que venham os macacos”, em referência a um possível confronto com o Brasil na semifinal. A provocação racista, explícita e sem qualquer disfarce, gerou indignação no Brasil e chegou ao campo diplomático.

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Capa do jornal Olé, em 1996

À época, o então embaixador brasileiro em Buenos Aires, Marcos Azambuja, enviou uma carta formal de protesto ao governo argentino, denunciando as insinuações raciais e depreciativas da manchete. O episódio foi tratado como um “excesso” de um jornal jovem, em seus primeiros meses de circulação. O tempo passou, o Olé se consolidou como um dos principais diários esportivos da Argentina, mas a lógica da ofensa racial contra brasileiros seguiu viva em arquibancadas, cantos de torcida, provocações de jogadores e, agora, em postagens de redes sociais.

O mais perturbador é a naturalização desse comportamento. Há quem tente enquadrar esses ataques como “provocação de rivalidade”, “zoeira de futebol”, “coisa do calor do jogo”. Não é. Associar um jogador negro a um macaco é uma forma histórica de desumanização racial. É violência simbólica. É racismo, dito de forma crua, sem verniz.

Nada disso impede que brasileiros sigam admirando Messi, frequentando Buenos Aires, consumindo a cultura argentina e celebrando a rivalidade esportiva como parte do espetáculo do futebol. O que não dá mais é para fingir que episódios como o do irmão de Otamendi são exceções folclóricas. Eles fazem parte de um padrão que se repete há décadas e que segue sendo tolerado, relativizado e, muitas vezes, tratado com indulgência.

O futebol não é um território à parte da sociedade. Quando o racismo se manifesta dentro dele, não é “brincadeira”. É reflexo de uma cultura que ainda falha em enfrentar seus próprios preconceitos.

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