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Hotéis caros e arquibancadas vazias: sinais de fracasso da Copa nos EUA

O país que se vende como centro do mundo descobre que nem todo espetáculo se sustenta apenas com o marketing

Marcondes Brito

16/04/2026 5h33

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Reprodução

Os Estados Unidos sempre gostaram de se apresentar como o lugar onde tudo dá certo, tudo cresce e tudo vira espetáculo. A Copa do Mundo de 2026, no entanto, começa a mostrar que essa narrativa tem limite – e ele pode ser medido, curiosamente, na quantidade de quartos vazios em hotéis nas cidades-sede.

A menos de dois meses do torneio, redes hoteleiras em centros estratégicos como Atlanta, Dallas, Miami, Filadélfia e San Francisco já reduziram em cerca de um terço o valor das diárias em dias de jogos. A expectativa era de ocupação máxima, com preços inflados e demanda internacional em alta. A realidade, porém, é outra: menos reservas do que o esperado e um mercado começando a dar sinais claros de preocupação.

O contraste entre discurso e realidade chama atenção. O presidente da FIFA, Gianni Infantino, chegou a afirmar que os 104 jogos do Mundial serão disputados com estádios lotados. Pode até ser. Mas fora deles, o cenário é menos exuberante. O próprio setor hoteleiro admite que a movimentação ainda não corresponde ao tamanho do evento.

Em Dallas, por exemplo, onde seleções importantes jogarão na primeira fase, já é possível encontrar quartos em hotéis três estrelas a partir de cerca de 200 dólares por noite – valor bem abaixo do que se projetava meses atrás. Para um evento que deveria provocar uma corrida por hospedagem, o preço em queda diz mais do que qualquer discurso oficial.

A explicação está, em boa parte, no bolso do torcedor. A mesma Copa que promete ser a maior da história, com 48 seleções e 104 partidas, também se tornou uma das mais caras. Estimativas apontam que um fã europeu pode gastar ao menos 6.900 dólares apenas em ingressos para acompanhar sua seleção até a final – quase cinco vezes mais do que no Mundial do Catar.

E não para por aí. A política de preços dinâmicos da FIFA vem elevando os valores à medida que a demanda oscila. Um exemplo simbólico: a final em Nova Jersey teve ingressos saltando de 4.185 para 5.785 dólares. Diante de cifras desse nível, o torcedor faz o que qualquer pessoa faria – corta custos onde pode. E o primeiro corte costuma ser justamente na duração da viagem e na hospedagem.

O resultado é um efeito dominó que começa a desmontar a lógica de abundância que sempre cercou os grandes eventos nos Estados Unidos. Executivos do setor já admitem que o esperado “boom” turístico ainda não apareceu. Mais de dois milhões de ingressos foram vendidos, mas isso não se converteu, até agora, em reservas de hotel na mesma proporção.

Há ainda fatores externos que ajudam a esfriar o cenário. A instabilidade global, com conflitos internacionais, e as políticas mais rígidas de imigração também entram na conta. Em outras palavras, não basta ser os Estados Unidos – é preciso que o resto do mundo queira ir até lá. E, neste momento, esse desejo parece menor do que o esperado.

A Copa de 2026 (que os EUA dividirão com México e Canadá), enfim, começa a revelar algo que foge ao script americano: nem tudo se resolve com poder econômico, marketing ou grandiosidade. Os Estados Unidos podem muito, mas não podem tudo. E, desta vez, quem está dizendo isso não é um adversário político ou econômico – são os próprios números.

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