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Flamengo completa o Rio de lágrimas 

Na terça-feira, chorou o Vasco, eliminado pelo Boca Juniors da Sul-Americana. Na quarta, foi a vez do Fluminense, derrubado pelo Palmeiras na Libertadores. Na quinta, o Flamengo completou a semana do desastre carioca, eliminado pelo Estudiantes

Marcondes Brito

23/10/2026 5h48

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O Flamengo deu a última contribuição para transformar o Rio de Janeiro num rio de lágrimas, mas sua eliminação não pode ser tratada apenas como um acidente esportivo ou como uma derrota nos pênaltis. A responsabilidade começa na diretoria, que tomou decisões, interrompeu um trabalho vencedor e escolheu o caminho que levou o clube até este momento. Na terça-feira, chorou o Vasco, eliminado pelo Boca Juniors da Sul-Americana no Maracanã. Na quarta, foi a vez do Fluminense, derrubado pelo Palmeiras na Libertadores. Na quinta, o Flamengo completou a semana do desastre carioca, eliminado pelo Estudiantes. Três noites, três decepções. Faltou lenço, sobrou sofrimento. 

Está difícil até encontrar alguém em condições de debochar do vizinho. Vascaínos, tricolores e rubro-negros têm suas próprias feridas para lamber. E o Botafogo, às voltas com seus problemas, tampouco oferece uma arquibancada confortável para assistir à desgraça alheia. No futebol carioca, a provocação pode esperar. O choro tem prioridade.

A torcida do Flamengo já imaginava outra final de Libertadores contra o Palmeiras, outro título, outra festa. Recebeu uma atuação decepcionante e uma eliminação dentro de casa. Depois do empate sem gols na Argentina, o time repetiu o resultado no Maracanã e perdeu por 3 a 2 nos pênaltis. A oportunidade estava ali. O Flamengo deixou escapar. 

Mas a conta não deve ser enviada apenas aos jogadores que erraram as cobranças ou ao técnico que comandou a equipe naquela noite. Pênaltis fazem parte do jogo, assim como derrotas. O que precisa ser examinado é o conjunto de escolhas que colocou o Flamengo nessa situação. A diretoria decidiu trocar o comando de uma equipe campeã e apostou em uma nova condução. Quando o resultado mais importante não vem, quem tomou a decisão precisa assumir sua parcela de responsabilidade.

Foi a gestão Bap que demitiu Filipe Luís, campeão brasileiro e da Libertadores em 2025. O começo de 2026 teve resultados ruins, com as perdas da Supercopa e da Recopa, e isso não deve ser apagado. Ainda assim, a diretoria escolheu interromper um trabalho vencedor. Não se pode reivindicar os méritos de uma mudança quando ela dá certo e transferir aos atletas ou ao treinador a culpa quando ela fracassa. Quem decide trocar o comandante também assume os riscos da travessia. 

O estrago pode ultrapassar a Libertadores. Uma queda dessas abala certezas, alimenta desconfianças e aumenta o peso de cada erro. Na disputa do Brasileiro com o Palmeiras, o Flamengo terá de recuperar também a confiança. O confronto direto em São Paulo, pela 36ª rodada, tem potencial de finalíssima. O risco é chegar a essa decisão carregando a frustração de uma final que não conseguiu alcançar. 

A cobrança precisa chegar à sala da presidência também por outro motivo. Bap conversou com Flávio Bolsonaro sobre a situação das bets, embora o Flamengo tenha negado que declararia apoio a qualquer candidato. A distinção é necessária, mas também cabe lembrar: uma torcida desse tamanho é plural. Tem eleitores dos dois lados. Nenhum dirigente recebe, junto com o cargo, procuração para transformar essa multidão em patrimônio eleitoral. Defender interesses do clube exige preservar essa fronteira. 

Leonardo Jardim, por sua vez, tornou a derrota ainda mais indigesta ao explicar as cobranças desperdiçadas. Disse que não caberia a ele ensinar jogadores daquele nível a bater pênaltis e concluiu: “Cada jogador tem que assumir”. A experiência dos atletas não dispensa a responsabilidade de quem os dirige. Um treinador pode confiar na autonomia de jogadores experientes, mas não pode transformar essa autonomia em álibi. Naquela hora, a fala soou como uma tentativa de deixar a conta no vestiário e sair de mãos vazias. 

Um comandante pode perder nos pênaltis. A diretoria também pode errar uma aposta. O que não pode é fugir da responsabilidade pelas escolhas que fez e deixar jogadores e torcedores sozinhos na derrota.

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