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Futebol ETC
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FIFA muda as regras para “americanizar” o futebol e aumentar o número de gols

Com as mudanças que estão sendo discutidas pela entidade, o futebol, enfim, está aprendendo a falar a língua do show business.

Marcondes Brito

12/01/2026 5h13

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Reprodução

Durante décadas, o futebol enfrentou uma barreira cultural quase intransponível nos Estados Unidos. Para o público americano, acostumado à frenesi da NBA, onde placares superam os três dígitos, ou à dinâmica de pontuação constante da NFL, o nosso soccer parecia um produto “quebrado”. O motivo? A escassez do gol. Assistir a 90 minutos de batalha tática para o jogo terminar em 0 a 0 era inconcebível para uma cultura que exige o clímax constante da vitória visível. A ausência de gols tirava o interesse do torcedor médio local.
Com a Copa do Mundo de 2026 sediada na América do Norte, a FIFA parece ter absorvido essa crítica e ensaia uma revolução silenciosa nas regras. O objetivo é claro: fabricar mais gols e vender o espetáculo para as novas gerações. Duas mudanças ilustram essa nova mentalidade.
A primeira, e mais radical, é a “Lei Wenger” sobre o impedimento, atualmente em testes. Hoje, o VAR anula gols por um nariz à frente. A nova proposta inverte a lógica: só será impedimento se o corpo do atacante estiver completamente à frente do defensor. Se houver qualquer intersecção de corpos, o lance segue. Na prática, isso dá uma vantagem enorme ao ataque.
Essa alteração não é mero detalhe burocrático; é uma mudança de paradigma tático desenhada para a TV. Ao dar essa vantagem ao ataque, a FIFA força as linhas de defesa a recuarem mais cedo, com medo da velocidade dos pontas. O resultado imediato é um campo mais “aberto” e menos congestionado no meio, trocando o jogo de xadrez travado por transições rápidas e verticais. É a tentativa de criar um produto com menos pausas de VAR e mais lances de perigo, aproximando a dinâmica do futebol à de esportes de alto placar.
A segunda mudança já é realidade nos pênaltis. Após as provocações de goleiros como o argentino “Dibu” Martínez, a regra endureceu. Acabaram-se os “jogos mentais”, toques na trave ou cera antes da cobrança. O goleiro foi “amarrado” na linha para limpar o caminho do batedor, garantindo que o momento máximo do futebol não seja sabotado pela malandragem.
Ao facilitar a vida do atacante no impedimento e proteger o batedor no pênalti, a FIFA envia o recado: o futebol tático é admirável, mas o que vende ingresso – especialmente em dólar – é a bola na rede. O futebol, enfim, está aprendendo a falar a língua do show business.

screenshot
A coluna na edição impressa do Jornal de Brasilia

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