O empate do Flamengo com o Internacional marcou, oficialmente, o primeiro ponto rubro-negro no Campeonato Brasileiro. Não é o resultado que empolga, nem o desempenho que tranquiliza, mas, dentro do contexto atual, funciona quase como um freio de arrumação depois de semanas de turbulência e frustração.
Nas arquibancadas e nas redes, a palavra “crise” começou a circular com força. Parte da torcida passou a resgatar comparações com 2019, reabrindo o velho debate sobre a ausência de Jorge Jesus e alimentando aquela nostalgia típica dos momentos de instabilidade. Esse tipo de movimento é quase automático em um clube acostumado a vencer: quando o resultado não vem, a memória seletiva vira abrigo emocional.
O que pouca gente se dispõe a considerar é o peso da sequência de decisões que o Flamengo enfrentou no fim da temporada passada. Em dezembro, o time disputava o Mundial Intercontinental contra o PSG, em uma final que foi à prorrogação, terminou empatada e só se resolveu nos pênaltis. Dois meses depois, o cenário é completamente diferente: derrota na Supercopa, campanha desastrosa no Campeonato Carioca e um início de Brasileiro que acendeu o sinal de alerta muito mais cedo do que qualquer planejamento previa.
A tentativa da comissão técnica de preservar o elenco principal no Carioca, utilizando os garotos do sub-20, até fazia sentido no papel. O problema é que o experimento saiu do controle. O risco real de rebaixamento no estadual forçou a volta apressada dos titulares, que retornaram sem tempo adequado de preparação, ainda carregando o desgaste de uma temporada pesada. O reflexo é visível em campo: o Flamengo joga em ritmo abaixo, com dificuldade de intensidade e pouca explosão física.
Jogadores que terminaram o ano passado em alta agora parecem travados pelo cansaço. O time, como conjunto, dá sinais claros de exaustão. Não é apenas uma questão tática ou de comando técnico. É corpo pedindo conta, algo que não se resolve com discurso, nem com cobrança emocional.
Ao mesmo tempo, a expectativa criada em torno do elenco também pesa. O clube investiu pesado, trouxe de volta Lucas Paquetá em uma das maiores operações da história do futebol brasileiro e alimentou, internamente e externamente, a ideia de um ano de domínio absoluto. Só que o futebol raramente respeita roteiros grandiosos. O Flamengo já deixou pelo caminho dois títulos importantes e começa a temporada nacional tendo que lidar com um cenário bem menos confortável do que o sonhado em janeiro.
O empate com o Internacional não muda o patamar do time, nem encerra a discussão sobre desempenho. Mas ajuda a lembrar que há contexto por trás do mau momento. Dar um desconto não significa passar pano. Significa entender que planejamento, desgaste físico e expectativas irreais se misturaram num coquetel perigoso. O Flamengo ainda tem elenco para reagir. O que não tem, no momento, é o fôlego de quem entrou no ano imaginando que ganharia tudo sem pagar o preço.