Dizem que o Maracanã é a casa do futebol carioca, a catedral do povo e o palco onde a história de todos os grandes do Rio de Janeiro foi escrita. Mas, quando o Vasco da Gama bate à porta pedindo para jogar, a recepção ganha contornos de cartório corporativo. Sob a gestão de Flamengo e Fluminense, o maior templo do futebol brasileiro passou a funcionar sob uma lógica curiosa: um bem público, mantido sob concessão do Estado, gerido com a mentalidade de um condomínio fechado de dois proprietários.
A incoerência da dupla Fla-Flu no caso do Maracanã salta aos olhos quando contrapomos o discurso à realidade jurídica e histórica do estádio. Flamengo e Fluminense sustentam que a presença do Vasco inviabilizaria a preservação do gramado e atropelaria o calendário denso que ambos já cumprem. O argumento técnico faz sentido na teoria, mas desmorona na prática quando se analisa a natureza do ativo envolvido. O Maracanã não é um bem privado erguido com capital de dois clubes; é um equipamento público pertencente ao Estado do Rio de Janeiro, financiado e reformado repetidas vezes com dinheiro dos impostos de todos os cidadãos — inclusive dos vascaínos.
Permitir que a concessionária do estádio use argumentos operacionais para vetar arbitrariamente a presença de um dos quatro grandes clubes do estado é validar uma privatização branca de um patrimônio coletivo. A narrativa de que Fla e Flu “assumiram o abacaxi” nos momentos difíceis e por isso teriam o direito de ditar quem entra e quem sai ignora o fato básico de que a concessão pública exige obrigações de acesso isonômico.
O Vasco nunca pediu para jogar de graça; dispõe-se a pagar o aluguel e as taxas operacionais devidas. Impedir essa utilização sob o pretexto de “cuidar do gramado” soa muito mais como exercício de poder e hegemonia comercial do que como zelo estritamente técnico.
Que rivalidade é essa?
A rivalidade, que deveria ser o tempero das arquibancadas, acabou sequestrando a gestão institucional do estádio. Ao empurrar o Vasco reiteradamente para os tribunais em busca de liminares para poder jogar, a dupla Fla-Flu escancara um duplo padrão: exige do Estado os privilégios da exploração de uma arena pública, mas recusa-se a arcar com o compromisso social e inclusivo que um patrimônio público carrega.
Se o Maracanã pertence ao povo e ao patrimônio esportivo do Rio de Janeiro, ele não pode ser tratado como quintal exclusivo de dois clubes. Ajustes de calendário e manejo de gramado são desafios logísticos perfeitamente superáveis com planejamento e diálogo institucional. Transformar esses entraves técnicos em uma barreira intransponível para afastar um rival é uma contradição que contraria o próprio espírito que fez do Maracanã o estádio mais icônico do mundo.