Disponíveis 24 horas por dia na tela do celular e impulsionadas por forte publicidade, as bets criaram um novo desafio para a saúde. Cresce o número de pessoas que perdem o controle sobre as apostas e comprometem dinheiro, trabalho e relações familiares.
Para discutir o problema, a coluna Futebol Etc ouviu com exclusividade o psiquiatra Giovanni De Toni, mestre em Ciências da Saúde, preceptor de residência do Hospital Universitário de Brasília, professor universitário e pesquisador em psiquiatria digital.
Segundo o dr. Giovanni, alguns sinais indicam que a diversão virou dependência: tentar recuperar o dinheiro perdido, jogar de madrugada, esconder gastos da família e recorrer a empréstimos para continuar apostando.
Outro sinal de agravamento é a busca por modalidades de maior risco, como cassinos online, “tigrinho”, caça-níqueis e apostas múltiplas ou em pequenos acontecimentos dentro de uma mesma partida.

“O transtorno aparece quando há perda de controle”, explica. A pessoa tenta parar ou diminuir a frequência e não consegue, mesmo percebendo os prejuízos. Aos poucos, a aposta também ocupa o espaço antes destinado à família, ao lazer, ao trabalho e ao descanso.
Giovanni lembra que, entre brasileiros que recorreram à autoexclusão para bloquear voluntariamente o acesso às plataformas, a perda de controle aparece como o principal motivo para abandonar as apostas.
O psiquiatra alerta que qualquer apostador regular pode desenvolver dependência. Os jogos exploram mecanismos do sistema cerebral de recompensa e, com o avanço do problema, o impulso para apostar pode permanecer mesmo quando jogar já não proporciona prazer.
Por isso, mensagens como “jogue com responsabilidade” ou recomendações para que o dependente simplesmente tenha “força de vontade” têm efeito limitado. Quem perdeu o controle pode continuar apostando apesar das consequências.
O impacto social também preocupa. Famílias de menor renda podem ser atraídas pela promessa de dinheiro fácil e acabar comprometendo recursos destinados a necessidades básicas, como alimentação e material escolar.
Para Giovanni De Toni, a publicidade maciça contribui para normalizar as apostas. E o maior sinal de alerta está entre crianças e adolescentes, cada vez mais expostos a conteúdos que apresentam o jogo como entretenimento.
O especialista teme que essa naturalização precoce produza consequências ainda mais graves nos próximos anos. Na sua avaliação, a dependência das bets já ultrapassou a esfera individual e precisa ser encarada como uma questão de saúde pública.
