Desde 1994, o brasileiro aprendeu a viver uma curiosa dobradinha emocional de quatro em quatro anos: o país entra em clima de Copa do Mundo e, poucos meses depois, mergulha na disputa pela Presidência da República. Em 2026, o roteiro vai se repetir mais uma vez. E aí surge a provocação inevitável: o que parece mais provável hoje, o Brasil conquistar o hexa ou Lula chegar ao tetra presidencial?
A pergunta é provocativa, mas a coincidência é absolutamente real. O casamento entre Copa do Mundo e eleição presidencial virou uma espécie de tradição nacional a partir de 1994, justamente o ano em que o Brasil conquistou o tetracampeonato nos Estados Unidos e Fernando Henrique Cardoso venceu sua primeira eleição presidencial embalado pelo sucesso do Plano Real.
Foi ali que os calendários praticamente “travaram” juntos. Com a redemocratização consolidada e o mandato presidencial ajustado em quatro anos, o ciclo eleitoral brasileiro passou a coincidir perfeitamente com o calendário da Fifa. Desde então, toda Copa do Mundo acontece em ano de eleição presidencial no Brasil.
Nem sempre foi assim
Mas nem sempre essa coincidência existiu. Durante boa parte da história brasileira, o calendário político era completamente irregular. Houve até alguns encontros ocasionais entre Copa e eleição, como em 1930, ano da primeira Copa do Mundo e também da eleição vencida por Júlio Prestes, que acabou não tomando posse após a Revolução de 30. Em 1950, o país viveu simultaneamente o trauma do Maracanazo e a volta de Getúlio Vargas ao poder pelo voto direto.
Depois disso, a sincronia voltou a desaparecer. Mandatos de cinco anos, eleições indiretas e o período da ditadura militar impediram qualquer coincidência regular entre futebol e política. Mesmo o tricampeonato de 1970 aconteceu sem eleições presidenciais diretas. Quando a democracia retornou, em 1989, o Brasil voltou a escolher um presidente, mas a Copa só aconteceria no ano seguinte. A coincidência definitiva só se consolidaria mesmo a partir de 1994.
De lá para cá, Copa e eleição viraram praticamente um pacote emocional completo para o brasileiro. Em 1994, teve tetra e FHC. Em 1998, derrota na final para a França e reeleição de FHC. Em 2002, penta e vitória de Lula pela primeira vez. Em 2006, eliminação traumática na Alemanha e reeleição de Lula. Em 2010, fracasso na África do Sul e vitória de Dilma Rousseff. Em 2014, o inesquecível 7 a 1 diante da Alemanha e reeleição apertada de Dilma. Em 2018, eliminação para a Bélgica e eleição de Jair Bolsonaro. Em 2022, queda para a Croácia nos pênaltis e retorno de Lula ao Palácio do Planalto.
Agora chega 2026. E mais uma vez o brasileiro viverá aquele velho dilema emocional: sofrer com a Seleção, discutir política no grupo da família e tentar descobrir qual disputa parece mais complicada.
A julgar pelo histórico recente da Seleção Brasileira em Copas do Mundo, conquistar o hexa parece cada vez mais difícil. Mas, olhando para a temperatura da política nacional, a corrida presidencial promete ser tão dramática quanto uma disputa por pênaltis nas quartas de final.