O empate de 1×1 com a Austrália foi ruim. Mas o resultado talvez tenha sido o menor dos problemas da Seleção Brasileira no primeiro amistoso depois do desastre na Copa do Mundo. Muito mais preocupante foi aquilo que o jogo mostrou sobre o material que Carlo Ancelotti tem à disposição para tentar reconstruir o Brasil.
Foram 45 minutos iniciais melancólicos em Townsville. É verdade que o gramado estava péssimo, cheio de buracos e irregularidades, lembrando alguns dos piores campos do futebol brasileiro — inclusive o Maracanã, tão criticado recentemente pelos próprios jogadores. Mas não há gramado que explique tudo.
O Brasil foi um time sem entrosamento, o que seria compreensível diante de tantas novidades, mas também sem criatividade, velocidade ou capacidade de se impor diante de um adversário tecnicamente inferior. Nos primeiros 20 minutos, foi a Austrália quem ocupou mais o campo ofensivo. A Seleção só melhorou quando abandonou um pouco a tentativa de trocar passes e passou a procurar lançamentos mais longos.
Estêvão chegou a marcar no fim do primeiro tempo, mas o gol foi anulado por uma falta de Bruno Guimarães na origem da jogada.
O que mais chama atenção é que havia dois jogadores consagrados no futebol espanhol em campo: Vinícius Júnior e Raphinha. São protagonistas de Real Madrid e Barcelona, respectivamente, mas continuam encontrando enorme dificuldade para reproduzir na Seleção aquilo que apresentam em seus clubes.
Existe uma explicação. No Real Madrid, Vinícius joga cercado por atletas de altíssimo nível, como Mbappé e Bellingham. No Barcelona, Raphinha também encontra companheiros capazes de estabelecer associações rápidas e potencializar seu futebol, como Lamine Yamal e outros jogadores de grande qualidade. Na Seleção, esse diálogo simplesmente não apareceu.
Isso ajuda a explicar. Não justifica atuações tão apagadas.
A situação de Endrick e Estêvão também preocupa. São dois dos jovens mais talentosos produzidos pelo futebol brasileiro nos últimos anos, mas chegam à Seleção sem a sequência de jogos que um atleta dessa idade precisa. Sem ritmo, pouco produziram.
Ancelotti tentou mudar o panorama no segundo tempo. E aí apareceu outro problema: o banco também não ofereceu soluções convincentes.
Pedro e Samuel Lino entraram justamente com uma vantagem teórica. Os dois jogam juntos no Flamengo e poderiam transportar para a Seleção pelo menos algum grau de entrosamento. Não aconteceu. A entrada da dupla praticamente não alterou o cenário.
A Seleção Brasileira terminou a partida como uma caricatura de uma equipe ainda à procura de identidade.
Mas quem é a Austrália?
Não se trata de uma seleção completamente irrelevante. A Austrália ocupa a 28ª colocação no ranking da Fifa e vem apresentando evolução competitiva. Na Copa do Mundo de 2026, passou pela fase de grupos, mas caiu diante do Egito na segunda fase, nos pênaltis, depois de empate por 1 a 1.
O histórico, porém, mostra a diferença entre as duas seleções. Em oito confrontos no futebol masculino, o Brasil venceu seis e empatou um. A única vitória australiana aconteceu na Copa das Confederações de 2001, por 1 a 0. Em Copas do Mundo, houve apenas um encontro: 2 a 0 para o Brasil em 2006.
Apesar de Rayan ter conseguido salvar o Brasil com um gol nos acréscimos, é justamente por isso que esse empate incomoda tanto.
Como primeira amostra da reconstrução depois da Copa, o que se viu em Townsville está muito longe de ser animador. Ancelotti evidentemente precisa de tempo para testar jogadores, encontrar combinações e reconstruir uma equipe profundamente abalada. Um amistoso não permite sentenciar o futuro de ninguém.
Mas permite acender o sinal de alerta.
Se o grupo utilizado contra a Austrália representar uma parcela importante daquilo que o Brasil pretende levar adiante, há motivos para preocupação. Basta imaginar essa mesma Seleção enfrentando a Noruega que eliminou o Brasil na Copa.
E estamos falando da Noruega.
Nem precisamos chegar ainda a Espanha, França ou Argentina.