A fase de testes de Carlo Ancelotti terminou – e terminou deixando mais dúvidas do que certezas. Era o momento de ajustar, definir, encurtar caminhos. Mas o que se viu foi um time ainda em aberto e um treinador diante de um quebra-cabeça que não se resolve com simples escolhas.
No ataque, há fartura. Jogadores em boa fase, nomes fortes, opções variadas. Mas falta encaixe. Falta alguém que organize essa abundância. E foi nesse cenário que surgiu Endrick, quase como um elemento fora do roteiro.
Chamado mais pela imposição do desempenho recente na Europa do que por convicção plena, entrou contra a Croácia nos minutos finais. Parecia participação protocolar. Não foi. Em pouco tempo, mudou o jogo, participou do lance decisivo e evitou um resultado constrangedor.
Mas o impacto de Endrick não resolve o problema de Ancelotti. Ao contrário, amplia. Porque a questão central não está no ataque. O Brasil pode ter várias soluções na frente. O problema está um pouco mais atrás, num espaço que se tornou raro: o do camisa 8.
Não o camisa 10 clássico, mais adiantado, mais próximo do gol. Esse ainda aparece, mesmo que de forma irregular. O que desapareceu foi o organizador. O jogador que pensa o jogo, que dita o ritmo, que conecta os setores.
É o meio-campista que não precisa aparecer para decidir, mas que sustenta todas as decisões. Que sabe a hora de acelerar e a hora de parar. Que tem visão, leitura, passe curto, passe longo, chute de média distância e capacidade de marcar com inteligência. Esse jogador praticamente sumiu do futebol brasileiro.
Já tivemos muitos. Rivellino era a mistura de técnica refinada com agressividade no chute, dono de um repertório que marcava jogos. Didi, antes dele, foi o maestro absoluto, o jogador que praticamente inventou essa função. Ele organizava o time sem esforço aparente, como se o jogo acontecesse no seu tempo.
Vieram outros que mantiveram essa escola. Rivaldo, Gérson, Toninho Cerezo, Dirceu Lopes, Raí, Juninho Pernambucano, Alex… Todos com algo em comum: a capacidade de pensar antes de executar.
O futebol mudou, é verdade. Ficou mais físico, mais rápido, mais intenso. Mas, no Brasil, essa mudança veio acompanhada de uma perda: a do jogador que organiza o caos. Formamos pontas, atacantes, volantes de marcação. Mas deixamos de formar o cérebro do time.
E é exatamente isso que falta à seleção de Ancelotti. Sem esse elo, a bola não chega com qualidade. O time não respira. Os ataques nascem apressados, os espaços não são ocupados com inteligência, e o treinador fica dependente de lampejos individuais.
Endrick pode decidir. Outros também podem. Mas alguém precisa construir o caminho até a decisão. E hoje esse alguém não existe.
Talvez essa seja a maior carência da seleção brasileira. Não está na lateral, embora exista. Não está no ataque, apesar das dúvidas. Está no pensamento do jogo.
O Brasil continua produzindo talento. Mas parou de produzir quem faz o jogo acontecer.
